domingo, 20 de abril de 2014

15. Obsessões

Nascer enquanto outros tantos querem morrer, respirar, aprender a se comunicar, alimentar-se bem, dormir à noite, não dormir quando o luar banhar de luz a outras tantas possibilidades ocultas, sonhar e lembrar-se dos sonhos, dormir para retomar os sonhos inacabados, amar e ser correspondido à altura ou além, odiar e amar odiar, não ser abandonado, sempre ter companhia, querer viver solitário, fazer o bem a todo custo – mesmo quando a bondade significa um mal inconveniente para os demais, mesmo dispondo das ferramentas e dos motivos errados para construção do bem, quando a bondade é egoisticamente conveniente –, a sede de justiça, de fazer jus às expectativas, as boas e as más, não ser feito de bobo, nem sofrer com a zombaria dos tolos, a obsessão pela simetria, por seguir os padrões, seguir a moda, querer ser diferente, ou bizarro, aquilo que chamam de anormal, se fazer de medíocre para ser visto como um fantasma, um ser invisível, gritar e querer aparecer demais, querer ter razão, ter o controle de tudo em suas mãos, perder o rumo e a direção como quem diz “nada mais tenho a perder e nada mais poderão esperar ou cobrar de mim” e ainda não querer se decepcionar, preencher as lacunas, os espaços vazios, o silêncio, encontrar um espaço que ainda esteja vazio, ter algo mais a declarar, o direito libertino de ter a liberdade de expressão, querer rimas nas canções quando tudo o mais ao redor já parece desafinado e destoante, rimar amor e dor, felicidade e maldade, voltar no tempo, avançar no tempo, tentar não repetir os mesmos erros, corrigir os erros alheios – o costume dos santos pecadores! –, apontar a hipocrisia dos outros, querer ignorar a sua própria condição de humano, voar acima das nuvens e alçar voos ainda maiores, ter uma base, um solo próprio, casar-se, ter filhos, cumprir missões sociais, trabalho, mais trabalho, horário extra, querer ser alguém na vida, seja lá o que isso queira dizer, ter muito dinheiro e pouco proveito, fugir das responsabilidades básicas, tanto das implícitas e lógicas quanto daquelas outras que alguma invisível entidade humana certa vez disse que você deveria ter, e não podemos nos esquecer da pressa, da vontade de querer terminar tudo tão depressa, incluindo a leitura de um livro ou de um longo texto, se considerar a velocidade atual das informações, pular momentos e trechos ou desistir no caminho, e depois querer saber como tudo terminaria, não querer que algo o interrompa antes de se sentir satisfeito, recompensado, ver o fim dos conflitos, o medo de morrer, que é tão forte quanto o medo de viver infeliz, agarrar-se à sanidade, não querer ajuda, agarrar-se à saúde, e não adoecer, almejar a cura... Querer, então, morrer e descansar enquanto outros querem nascer, quando tantos outros nem mesmo isso conseguem, não querer morrer sozinho, morrer e libertar-se da prisão do corpo e da mente, transcender, descansar, calar de vez a voz dos pensamentos, querer fugir do tumulto, dos pensamentos congestionados, fugir das angústias, querer que tudo se conecte e faça sentido, que seja resumido, explicado, e que o universo seja finito, que o mundo se cale e morra com você, buscar, buscar e buscar, não esperando ser impedido por uma interrupção abrupta, querer encontrar uma resposta para tudo, para a vida e a morte, para o agora e o nunca, revisitar o passado, esquecer de viver o presente e temer o futuro, e então, novamente, querer ter o controle de tudo, além da obsessão pelo fim das obsessões, que desregulam o ritmo da vida e distorcem as percepções, e nos tornam obcecados pelo fim da obsessão através de nossos esforços solitários, lutar para dar um fim às intermináveis obsessões – e elas não param mais, mas se proliferam! –, querer sempre ganhar de tudo e de todos, vencer toda a loucura do cotidiano, o desejo perpétuo de ser aquele que é eleito a dar o ponto final

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terça-feira, 25 de março de 2014

14. Síndrome de Hiena


(Ou o mais adequado seria "Complexo de Hiena"?)

Quando as pessoas me veem na rua, elas costumam me perguntar o motivo de eu estar bravo. É a pergunta favorita de pesquisadores, de vizinhos e de outras tantas pessoas que me veem apenas por alguns instantes, principalmente quando estou caminhando e tudo o que quero é cuidar da minha vida; afinal, não estou pedindo muito, não é mesmo?
Que nada! Estou bem, e obrigado por perguntar. Tenho um pouco de sensibilidade à luz e faço caretas por esse motivo, sem contar que eu herdei o semblante sério de meu pai.
Na verdade, eu até sou bem risonho, se quer mesmo saber, ainda que não viva sorrindo publicamente sem ter encontrado bons motivos para isso. Sorrir mostrando meus dentes, então... Isto eu faço apenas sob coação.
Uma amiga certa vez disse que os dentinhos separados dela não são para qualquer um, e bem sei o que ela quis dizer. Não é uma simples questão de esconder algo que não considero lisonjeiro em mim ou de ignorar os grandes benefícios que, sim, eu sei, o sorriso traz à nossa saúde, mas pessoalmente considero o sorriso – ou mesmo o riso – muito mais valioso quando surge pontualmente como um contraponto à seriedade, quando menos se espera, e isto é o que me leva a rir melhor.
Mas banalizaram o sorriso.
Banalizaram as risadas.
Com o tempo, as pessoas se vestiram em pele de hiena.
Ou as hienas vestiram as nossas carcaças humanas, e agora habitam entre nós, mal disfarçando a sua hilaridade gratuita. São criaturas jocosas, essas hienas de plantão!
Não que o riso seja em si um problema, e não é, mas pensando bem, não me surpreenderia de às vezes me surgir o ímpeto de perguntar o motivo das risadas.
De fato, rir é melhor que chorar, como dizem; não há o que discutir a respeito. Contudo, às vezes eu tenho a nítida impressão de que as pessoas não sabem nem do que estão rindo, mas não por serem naturalmente risonhas tal como o Feliz dos sete anões ou o gato da Alice, e sim por uma certa demência que tem o riso como um elemento exigido e desesperadamente garantido, como que essencial para a sua demente existência.
Tudo bem, eu sei que nós aprendemos a rir de nós mesmos e do desnorteio de nosso cotidiano, apenas para citar um exemplo comum. Rir de uma dificuldade sofrida coletivamente alivia a tensão e aproxima desconhecidos que, não fosse a repetição de uma mesma história em comum, talvez nunca dirigiriam uns aos outros palavras, olhares ou acenos silenciosos indicativos da compreensão de algo percebido ou presenciado em conjunto. O riso pela empatia, como a piada interna de um grande grupo. Neste sentido, o riso é saudável e natural.
Contudo, o riso não pode simplesmente preencher o vazio de nossa incompreensão não confessada ou mesmo disfarçar a nossa falta de atitude diante das dificuldades, sendo mais honesto confessarmos a nossa ignorância. Embora, em alguns casos, o riso possa ser visto exatamente como um atestado de ignorância, sendo uma consequência disso, como quando rimos ou fazemos chacota de coisas que precisam ser levadas um pouco mais a sério.
Mas esta é uma questão muito polêmica!
Defensores do riso acreditam que ele deve estar presente mesmo nos momentos em que se faz inconveniente. Isso torna a vida mais suportável.
Tudo bem, eu concordo: o riso pode mesmo ser benéfico.
Isto é, antes de as hienas entrarem em cena.
Você conta uma piada muito boa e é aplaudido.
Você fala sobre assuntos mais complexos, sobre coisas que demandam um pouco mais de contemplação, de reflexão e seriedade, então as pessoas nada dizem... Ou elas dizem que você fala demais. Isso quando não procuram um motivo para rir, mesmo quando a piada parece inexistente! Você pode ver isso com frequência na rede: as pessoas não levam nada a sério, mesmo quando isso se faz necessário, e ainda tentam forçar uma piada, mesmo quando ela não é bem vinda!
Eu sei. Tudo isso parece ser a carta de um indivíduo desprovido de senso de humor, de um ranzinza com a face carrancuda, não é verdade?
Os mais sisudos sentem uma necessidade de justificar seus argumentos reafirmando o que disseram anteriormente, mas os risonhos, estes nunca pareceram sentir a obrigação de justificar a sua risada involuntária.
Repito: é melhor rir do que chorar.
Eu aprendi nesta vida a debochar de mim mesmo e a não ser tão autocrítico, e também aprendi a ter uma leve incredulidade para cima da minha eterna síndrome de perfeccionismo sobre tudo o que faço e a olhar para mim mesmo sob um olhar cínico e rir, o que é muito saudável e quebra a monotonia de tentar ser assim tão correto. Eu aprendi a não ter a pretensão de querer ser o maior exemplo de perfeição, pois ninguém o é.
Repito: é melhor rir do que chorar.
Mas eu pelo menos nunca ouvi alguém dizer que o oposto exato do riso seria o choro!
E eu sei rir.
Conte-me uma boa piada, das mais simples, que são aparentemente tolas, até aquelas originadas no território do inusitado, das mais absurdas, e eu saberei rir.
O ponto nunca foi esse!
Considere isso como uma extensão ao tema da língua ferina e dos dedos afiados. Há uma ligação muito forte entre a síndrome de hiena e a falta de tato no que se diz, com a diferença de que as hienas não existem apenas no mundo virtual, mas caminham entre nós em ambientes públicos, e elas podem ser encontradas das portas para dentro e das portas para fora. E elas podem existir dentro de nós, contagiantes como são.
E as hienas opinarão sobre assuntos sérios como se estivessem contando uma piada!
E as hienas certamente vão rir dentro de uma sala do cinema mesmo durante certas cenas que demandam seriedade ou um pouco de silêncio para fins de efeito de imersão. E elas vão arreganhar os dentes se forem contrariadas. Nem mesmo as hienas suportam por muito tempo o seu próprio sorriso sardônico!
E as hienas falarão de política com um certo ar de deboche, ainda que os diretamente envolvidos com ela tenham o costume de fazer o mesmo!
E elas vão rir, e rir, e rir... pois, quando são contagiadas por essa hilaridade cega e irrefreável, isso é tudo o que as pessoas sabem fazer.
E encerro aqui deixando-lhes um alerta: tenham cuidado com as hienas!
Elas estão em todos os cantos e querem a sua carne e um minuto de sua atenção. Não se deixem enganar por seu eterno sorriso e por sua natureza carniceira disfarçada de senso de humor!

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domingo, 23 de fevereiro de 2014

13. Desconstrução


Quebrar.
Destruir para reconstruir.
Não com as mãos, menos ainda com armas, pedras ou quaisquer outras ferramentas tangíveis, e sim com aquelas nunca vistas, mas percebidas e adquiridas conforme a tua experiência de vida se torna ainda mais crescente.
Destruir de dentro para fora e não de fora para dentro.
Destruir-se.
Quebrar a si mesmo em mil pedaços; não literalmente, é claro, mas de maneira figurativa.
Triturar velhas ideias, fragmentá-las.
Transformar esses fragmentos em um grande mosaico de novas percepções.
Quebrar tudo de novo e mais uma vez.
Processo repetitivo e reciclável.
Ligar os pontos e costurar as pontas soltas até que se soltem novamente.
Preencher as antigas lacunas, assim como as mais novas e as demais que surgirão futuramente, nunca desconsiderando que outras tantas ainda serão deixadas para trás.
Preencher o vazio com a voz do silêncio pertinente durante os intervalos necessários, sendo a melhor escolha aquela de soltar o verbo apenas quando há algo melhor a dizer.
Tentar escrever reto por linhas tortas, quando tudo o mais parece ser escrito torto por linhas alegadamente retas.
Eis a grande arte desenvolvida por pensadores, mesmo por aqueles não tão famosos.
Pensar para fora e além de seu tempo.
Para fora de seu corpo.
Ideias que vivem aprisionadas em corpos e mentes, elas tentam sair de algum modo. E para alguns, como eu, a escrita é a grande chave libertadora.
Fazer a alma respirar.
Transformar os rabiscos e rascunhos caóticos da caixa branca em novas ideias livres.
Limpar a caixa branca e abrir espaço para novos rascunhos e, consequentemente, para novas ideias, ideias novas em folha.
Ideias que podem mudar tudo... ou não.
Ideias que desafiam o suposto bom senso dos que vivem em uma zona de conforto.
Ideias que muitas vezes não são pronunciadas, mas sentidas no ar.
E ideias que outros tantos conceberam anteriormente, mas poucos traduziram.
Tentar alcançar e atingir a tantos com a sua capacidade de expressão, usando as ferramentas que possui à sua disposição com ousadia, mas, acima de tudo, com a devida sabedoria.
Quebrar paradigmas.
Plantar a semente da reflexão em um solo supostamente árido.
Tentar fazer isso com a sua alma expressada.
As pessoas captam as ideias à sua maneira, de acordo com a sua visão particular, mas algo bom pode vir disso. Variações da mesma ideia, talvez com o acréscimo de perspectivas interessantes não consideradas anteriormente, elas surgem e levam o conceito para frente.
Esta é a nossa grande missão, sendo ela utópica ou não.
Quebrar.
Destruir para reconstruir.
Destruir de dentro para fora e não de fora para dentro.
Reaprender.
Transformar.
Levar o mundo e a humanidade à queda definitiva da Torre de Babel, aquela barreira invisível que sempre dificultou a comunicação entre os semelhantes.
Pois sonhar nunca é demais.
E querer tornar o sonho real não deixa de ser mais uma tentativa decente de quebrar as barreiras impostas por este mundo absurdamente concreto e sem imaginação. Os sonhadores são aqueles com o potencial de transformar o futuro.


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domingo, 26 de janeiro de 2014

12. São Paulo

Bom dia, filhos da cidade grande.
Vejo centenas de rostos sonolentos que vêm e vão com o girar das catracas, muito antes de o sol nascer. Ouço a algazarra de buzinas nas ruas, assim como o choro escandaloso de crianças contrariadas no interior das latas de sardinha, mas todo esse barulho é produzido em vão. E o pior de tudo é o cheiro rançoso de suores que invade as narinas já pela manhã.
Bom fim de tarde, filhos da cidade grande.
Vejo os mesmos rostos inexpressivos daqueles que muito produzem voltando ao mesmo tempo para os mesmos lugares, rostos que ocultam suas muitas frustrações. Mas com o abrir das portas duplas, as máscaras de inexpressividade são deixadas de lado, e em seus rostos e nos gestos desesperados, os bárbaros são finalmente revelados, e tudo isso é por um lugar no metrô. E o pior de tudo é o cheiro rançoso de suores que invade as narinas depois de um longo dia.
Boa noite, filhos da cidade grande.
Essa cidade, ela não dorme nem descansa. Mesmo com nossos olhos fechados, ainda é possível ver as luzes que iluminam ruas quase inteiramente vazias. E durante um raro silêncio meditativo durante a madrugada, ainda conseguimos ouvir o burburinho de conversas indesejáveis e as risadas das hienas, além de seus gritos eufóricos.
Mas quando não derrama suores fétidos durante o dia ou mesmo durante à noite, a cidade assume a postura de uma dama elegante e culta. Ela frequenta livrarias, alimenta-se em restaurantes caros, isso quando não desfruta secretamente do sabor de um enorme sanduíche de mortadela no Mercado Municipal, e então vai em exposições de arte nos dias gratuitos ou simplesmente olha com atenção para os monumentos modernos, isso quando não vai ao teatro ou se depara com ele em suas entranhas, nas ruas e pontes.
Ela nem sempre faz essas coisas, é claro.
Quando se cansa de tanto produzir e de se desenvolver durante o dia, muitas vezes ela quer apenas voltar para suas vãs tentativas de sono dos justos. E quando é o caso de produzir durante à noite, os barulhos da vida diurna não permitem o seu descanso.
Mas quando quer, a cidade se ilumina devidamente com suas belezas peculiares que, mesmo não sendo naturais muitas vezes, mas belezas projetadas, atraem olhares fascinados. Quando vemos seus pontos turísticos, vemos refletida a sensação de sermos um de seus habitantes. É um misto de estranheza e fascínio, algo que outras palavras não conseguiriam definir com mais precisão.
Mas às vezes, a cidade caminha feito uma prostituta barata, malcuidada e doente, vivendo sob uma enorme bolha de poluentes, e carregando um grande número de filhos bastardos em seu inchado ventre. Golpeada no rosto, com seus olhos inchados e a visão turva, ela prefere ignorar os sintomas e os agentes de suas enfermidades, e mais filhos bastardos e doentes são paridos. O cérebro desta cidade, mesmo ele não costuma agir a favor dos demais membros, o mesmo que acontece com tantas outras. E os membros, os habitantes da cidade, eles são como células em um corpo gigantesco, mas muitas vezes não colaboram uns com os outros, mas reclamam das falhas no cérebro. E assim, todos os dias, eles lutam desesperadamente por um espaço na vida ou mesmo na morte. Para terem um teto sobre suas cabeças ou por um lugar embaixo da terra.
Essa cidade, ela é um pouco de tudo.
Existe uma pluralidade de povos e de culturas em cada esquina ou mesmo atrás de cada porta, de vidas secretas e outras não tão secretas, de sonhadores e desiludidos, de satisfeitos e eternos insatisfeitos que vivem cuspindo no prato em que comem, de criaturas que não se assustam com a imponência dos edifícios e aquelas que saem correndo, de criaturas que lutam por um ar mais puro e aquelas que são céticas a respeito, de...
De tudo isso e um pouco mais. São tantas coisas, e as palavras, neste caso, elas sempre serão insuficientes. Listar o incontável é uma tarefa ingrata.
Esta é a minha cidade.
Ela foi o meu berço e – quem sabe – será o meu túmulo.
Pode não ser perfeita, mas eu a amo eternamente.


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terça-feira, 21 de janeiro de 2014

11. Gratidão



Você sabe, não seria uma verdade absoluta se eu dissesse que finalmente – e de uma vez por todas – fiz as pazes com a vida ou comigo mesmo, pois se trata de um processo muito longo. E, afinal, se tudo for de acordo com as expectativas, a minha vida não termina hoje para que eu simplesmente resolva esquecer de me reconciliar com ela todos os dias, reafirmando de maneira constante a minha aliança com a minha existência, demonstrando um mínimo de gratidão por ter tido a oportunidade de existir entre tantos outros que nem mesmo entraram nos planos do universo.
Você sabe, eu posso ser um sátiro, um piadista, um homem espirituoso quando quero ser. Eu também posso ser um sábio quando sou preenchido de luz. Posso ser um poço de alegria. Posso ser um poço de bondade...
Mas às vezes sou apenas humano.
Sou feito de altos e baixos. De dualidades.
Posso rir (e fazer rir) na mesma proporção em que derramo lágrimas.
Posso ser sábio, mas também posso ser obtuso quando quero que minha alma e minha mente respirem um pouco.
Posso ser um poço de tristeza, apesar de lembrar a mim mesmo que a alegria ainda existe.
Posso ser bondoso ou maquiavélico, mas certamente não sou um conceito maniqueísta.
Você sabe, somos todos humanos, e a imperfeição é um grande alívio.
Certa vez conheci um profissional que me ensinou a agradecer por minhas pequenas neuroses, aquelas que mais me incomodavam. Vi nisto um método para afastá-las, quando sentia que lutar contra era nada além de um esforço desnecessário. Eu deveria olhar para cada uma delas fixadamente, e em seguida deveria pedir para que a neurose em questão me libertasse, então agradecia em seguida, várias vezes, se fosse necessário, mas sem perder a calma.
Confesso que não era assim tão simples: é quase como mergulhar. Durante o mergulho, você precisa confiar nos equipamentos e na reserva de oxigênio, assim como naqueles que o acompanham. Você precisa observar a própria respiração. Precisa se aceitar como um elemento em harmonia com a água, e permitir que ela o aceite como tal.
E o principal: não entre em pânico!
Minha imperfeição, minhas neuroses, meus dilemas, meus sentimentos nobres e mesmo os mais vulgares, tudo isso compõe parte do todo, ainda que em vida eu tenha muito a aprender no caminho, ainda que veja muitas coisas serem diferentes durante a minha vida e mesmo no homem que eu sou.
É fútil tentar lutar contra a sua natureza.
O ideal seria conhecer a si mesmo e enxergar a sua própria natureza como algo que você pode domar sem o uso de força bruta ou de tortura contra a sua própria alma. E não devemos encarar nossas neuroses e dilemas como defeitos, (e admito que às vezes faço isso; contudo, quero repetir que sou humano e imperfeito) mas podemos compreendê-las como sendo agentes de crescimento, assim como são as nossas lutas diárias.
Que tal se agradecêssemos mais?
Que tal se fôssemos mais gratos pelo que temos gratuitamente e pelas coisas conquistadas?
Que tal se agradecêssemos pela oportunidade de conhecermos a nós mesmos?
Por favor, permita-me agradecer...
Sou grato pela oportunidade de viver. Pela respiração. Pelos batimentos cardíacos.
Sou grato pela minha infância. Ela foi doce o quanto pôde ser dentro das possibilidades.
Sou grato pelos machucados e demais arranhões. E por aquele remédio que causava uma ardência terrível, mas me ensinava a valorizar e a não banalizar a dor, ensinando-me a ter mais cuidado futuramente ao cumprir meu papel de garoto brincalhão e elétrico.
Não sou favorável ao sofrimento imposto por outros, principalmente quando eles são conscientes disso e ainda argumentam que estão me ensinando a ser um homem, mas agradeço a todos aqueles que fizeram de minha adolescência um inferno.
Sou grato pelo jogo psicológico de gato e rato, no qual eu jogava para valer enquanto vocês eram os únicos que se divertiam. Pelo suor de meus esforços como estudante e por aqueles que fingiam ser meus amigos e tinham o talento natural de abusar de minha boa vontade.
Sou grato pelo dia em que tudo isso acabou e pelo sorriso que me veio aos lábios quando vi um de vocês se desesperar ao colher o fruto plantado de seus deméritos.
Pelos apelidos ofensivos. E pelo dia em que devolveram o meu nome.
Sou grato pela infâmia. Por aqueles que me chamam de louco ou me amaldiçoam quando não estou presente.
Por você que não amadureceu o suficiente para me mostrar que superei essa fase.
Sou grato por ser um fantasma silencioso, que aparece apenas quando sente o desejo. Eu entro e saio sem ser incomodado. Cuido de minha vida e de minha vida só eu cuido.
Sou grato pelos momentos raros de silêncio, muito raros hoje em dia.
Pela boa musicalidade da vida e do universo, mesmo quando a canção não é das mais felizes. Sou grato por gostar especialmente de canções que tocam e sacodem a minha alma, e não o meu traseiro.
Sou grato por ter tentado correr contra o tempo quando eu ainda não estava preparado.
Sou grato pelo estouro de minhas neuroses. Pelos dilemas de cada dia.
Sou grato pelos longos meses de choro e pelas lágrimas derramadas por nada.
Pelas noites insones e pelo sono pegajoso.
Pelo medo irracional de morrer.
Por meu primeiro amor. Que mudou minha vida para sempre.
Pela canção no piano.
E por nosso primeiro beijo, seguido de um suspiro. Foi libertador.
Sou grato por você ter lutado ao meu lado.
Pelos altos e baixos. Pelas alegrias e tristezas. Pelas eventuais decepções.
Sou grato por ter me ensinado a viver intensamente, ao mesmo tempo em que aprendia comigo a ter um pouco de juízo.
Não sou exatamente grato pelo dia em que desistiu de lutar, mas posso entender. E eu queria que você tivesse entendido isso: sou um homem, apesar de ser tão jovem.
Sou grato por você ter me libertado ao abrir mão de nós, de nossos sonhos.
Pelas lágrimas que derramei no dia de sua partida prematura.
Por saber que fui o amor de sua vida. No fim, nós dois vencemos.
Sou grato pela vulnerabilidade, comum na liberdade.
E pela oportunidade de ser seletivo. De estar no comando, para variar; ainda que eu tenha de me curvar para as circunstâncias, para variar. Lembro-me de como tudo parecia tão mais simples quando éramos apenas você e eu. Sou grato por você ter deixado a minha vida virar de cabeça para baixo.
Muito obrigado pelas fotografias que fazem você ressurgir, provocando-me um susto. Elas me fazem pensar que talvez você ainda esteja entre nós, apesar de saber que isso não é verdade. Sou grato pelas boas lembranças, mesmo daquelas em que não estive presente, das quais não me convidou.
Devo mencionar quem apareceu depois.
Sou grato por quem fez um ano obscuro se tornar o mais épico de todos.
Sim, você.
Sou grato porque você existe.
E pelas circunstâncias que fizeram os nossos caminhos se cruzarem. Por nossas histórias semelhantes, ainda que diferentes.
Obrigado por ter aberto suas portas e por ter recebido esse jovem tolo, mas que pensa saber de tudo, inclusive sobre sentimentos. Mas sentimentos nada sabem e não se explicam. Você sabe, eu sou sensível na mesma medida em que sou um sábio imperfeito. Sou um jovem sonhador, que não deixa de sonhar apesar de minha melancolia constante.
Sou grato pelo seu dom natural de fazer eu me sentir bem, ainda que duvide.
Por tornar meus dias mais emocionantes.
Por ter me ensinado a sorrir com menos vergonha de mostrar os dentes.
Por ter me convidado a ver o céu noturno ficar iluminado e pelos passos tortos na areia.
Por ter cuidado de mim, apesar de eu ser um péssimo paciente.
Por você ter sido paciente quando fui tolo e me desesperei sem a menor necessidade. Pelas lágrimas que derramei quando tudo o que você mais desejava era me fazer sorrir. Sou grato pelas palavras que precisavam ser ditas minutos antes de eu ter de voltar à minha realidade.
Por ter rido e chorado comigo.
Novamente, eu sou grato porque você existe.
E vive, e respira, e é real.
Em suma, eu sou grato por tantas coisas, mas sei que você não aguentaria ler isso por muito mais tempo. Eu já fico admirado que você tenha conseguido ter paciência de ler até aqui.
Calma! Só mais um pouco e acaba.
Sou grato por aqueles que me trouxeram à vida e me permitiram vivenciar tudo isso. Um único parágrafo é muito pouco para expressar o quão grato sou, mesmo com as nossas diferenças, pelo simples fato de terem me planejado com muito carinho. Eu não sou o filho perfeito, é claro, mas sei o quanto lutam por mim. Obrigado por tudo.
Sou grato por quem faz minha vida ser possível.
Sou grato pela vida, um dia após o outro. Uma gratidão a ser renovada.
E também pela morte, minha eterna inimiga sem rosto. Pois a perspectiva de um fim torna a vida muito mais valiosa, assim como tudo o que ela nos reserva.


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terça-feira, 7 de janeiro de 2014

10. Nefasto!



Sob ombros encurvados,
o caminhar lento,
muito calculado,
neste mundo de Deus ele é apenas um outro andarilho errante.

Tal como um rato vagando entre elefantes,
com horror e fascinação refletidos em seu olhar,
ele espanta multidões,
derruba reinos e nações,
faz todo um mundo parar.

Como um mal que não foi cortado pela raiz...
ele é uma mensagem de infâmia que se espalha aos quatro ventos.
Uma notícia que parece vir de um outro país...
Um dragão a ser combatido,
às vezes confundido
com um distante moinho de vento.

Mas na mesma proporção em que é asqueroso,
ele é hipnótico, persuasivo,
ligeiramente louco.
Não precisa nem mesmo estar por perto:
quando quer, sem encontrar grande resistência,
derrete o gelo de algum peito ligeiramente aberto.

Mas para muitos ele é só um golpista,
um maldito
amaldiçoado,
um artista
com tramas de maldade,
um mero louco.

Um nome a ser evitado:
quando dito em voz alta, à boca vem o sabor amargo.
Como um canto de ave noturna,
um nome de mau agouro.
Seria ele um lobo em pele de cordeiro,
ou cordeiro em pele de lobo?

De verdade, não importa!
Vejamos o que melhor combina com sua natureza torta...
Na falta de nome, de rosto, de traço,
vamos para sempre chamá-lo de... Nefasto!

Nefasto!
De longe vem o forasteiro explorar novos horizontes.
Nefasto!
Quem ele pensa que é para vir amar tão longe?

Nefasto! Nefasto!
Seus olhos são de raposa...
Nefasto! Nefasto!
… e o coração é de galinha.

Ele não é nenhum demônio libertado da garrafa,
mas o tratamos como tal.
Ele é apenas um grande homem com doces sonhos de menino,
doces sonhos perdidos.
Não parece ter bem a essência do mal.

Mas do nada
ele é o grito de dor na calada da noite.
E o choro silencioso na madrugada.
Sonha um mundo de sonhos,
um tolo conto de fada!
Ele é o Nefasto.

O seu amor é cruel e trágico.
Tem o coração triste,
de vidro despedaçado,
e o medo de perder de novo tudo o que ele mais ama.
Mas... ele é o Nefasto!

Ele é cruel, maquiavélico, sanguinário...
Ouvimos dizer que de seu coração sai poesia.
Mas como não o conhecemos...
não o entendemos...
Devemos, então, sacrificá-lo!

Eis que vem...
Lá vem o Nefasto!
Nefasto! Nefasto! Nefasto!
Tão jovem,
e ainda assim tão nefasto!
Nefasto! Nefasto! Nefasto!
E com todo o seu amor...
Vamos, então, sacrificá-lo!

E ainda assim, ele será lembrado...
como sendo o eterno,
o eterno Nefasto!

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