terça-feira, 15 de julho de 2014

18. Carta ao Filho


Filho,
os motivos que me levam a escrever essa carta não cabem em linhas no papel, mas somente dentro de meu peito infinito em emoções, das mais visíveis às mais secretas. Nunca me imaginei escrevendo para você, mas hoje me veio, de repente, uma vontade de tentar me comunicar de uma maneira que finalmente faça a gente falar a mesma língua. E eu escrevo essa carta na esperança de que essas palavras tragam algum conforto ao teu peito jovial e à tua alma muito além deste mundo, ainda que exista algo de muito humano em você.
Gostaria de poder dizer ter conhecimento de todas as manifestações de seus sentimentos, mas não posso, e nunca lhe foi negada a liberdade de ir e vir ou mesmo de existir sem maiores questionamentos... de minha parte, é claro. Por outro lado, do lado de fora de tuas paredes brancas, a história é um tanto diferente, meu filho, e nada podemos fazer senão prepará-lo.
Mas o conhecemos muito bem. Ou o suficiente. Desde os primeiros segundos de seu nascimento, sua vontade em ser notado como uma criatura viva foi manifestada antes da palmada do doutor tê-lo feito chorar. Mas depois, por algum motivo obscuro, você se transformou em um garoto muito reservado, que gritava quando tinha o seu espaço invadido ou mesmo quando era arrancado de seu mundo. E eles ainda ousavam roubar o seu nome e o batizavam com outros que não eram de seu gosto, quando tudo o que você sempre quis foi ter o direito de preservar a sua identidade. Hoje penso que talvez seja essa a principal fonte da grande fúria que desde sempre tem habitado em teu peito. No passado, lembro-me dos muitos surtos de quando todos o contrariavam e o apelidavam com o diminutivo do nome do pai. Ninguém nunca pensou que talvez você apenas gostasse de ser único e original, e talvez não quisesse viver e morrer à sombra de outra pessoa, mas não por uma vergonha inventada por outros.
E lembro-me de quando você sorria e discretamente comemorava suas pequenas vitórias diárias, como quem sempre sentiu ter algo para provar a si mesmo, mas sem querer atrair uma atenção pegajosa que nunca pediu para si, e a gente sorria quando você aceitava dividir suas alegrias. Tudo estava bem. Mas a gente logo sabia quando não estava, ao vê-lo entrar em casa com uma visível e gritante frustração estampada no rosto. Quando a gente perguntava o que houve, você logo dizia que poderia suportar as pequenas derrotas, mas não suportava ser perturbado por seus semelhantes. Mas, aparentemente, você não poderia ser humano igual a eles e ainda ter a ousadia de cometer erros.
A vida é como um grande teste. Quando o resultado aparece, você respira aliviado ao ver que tudo parece finalmente em ordem. E mesmo quando a vitória é uma promessa, você sabe que ainda é humano e que pode errar a qualquer momento. Sentir aquele frio na barriga causado pelas expectativas ou ter de prender a respiração, e depois descobrir que pode respirar aliviado, isso é o que torna a experiência de viver muito mais intensa e completa. E considerando que a gente sabia que você sabia ter noção, responsabilidade e controle sobre os próprios rumos tomados, nunca nos preocupamos de verdade em vê-lo perdido na sombra de erros fatais. O que talvez não fosse de todo um acerto. Pois como descobrimos mais tarde, o seu excesso de comedimento se tornaria sua prisão.
Muitos queriam desumanizá-lo, era o que nos dizia. Queriam transformá-lo em um ser perfeito, mesmo contra a sua vontade. Em um ser sem vontades ou sentimentos humanos. Queriam transformá-lo em uma tecnologia programada por baixo da pele humana, como uma máquina perfeita de calcular as quatro operações fundamentais, movida a baterias recarregáveis. Ou mesmo em um artefato mágico, como um livro que revelasse todos os segredos do universo. Isso o fez acreditar que todo o restante do mundo queria fazer o mesmo.
Você queria gritar aos quatro ventos que ainda era humano e que sentia.
E você gritou.
Seu comportamento mais reservado durou até uma certa tarde de verão, quando acordou de um cochilo e aos gritos pediu para não morrer. Mas morreu. Morreu simbolicamente. E desta morte você ressurgiu diferente, renascido em uma nova vontade, acumulando em teu peito o que depois viria a ser um grito livre de vida nova.
E ainda assim, foi o início de uma fase mais obscura. Uma sombra de dor, preocupação e tristeza pairou sobre você e sobre a gente, mas também trouxe mudanças significativas em nossas vidas. Por exemplo, do seu jeito e em meio ao desespero, você tem se afeiçoado um pouco mais aos teus pais. Talvez por medo de ser tão jovem e já se sentir tão perdido, mais ou menos como um filho que bem mais tarde sente aquela ânsia de regressar ao conforto dos braços daqueles que nunca o abandonaram, mas que por ele foram esquecidos, com a diferença de que você ainda era muito jovem e ainda se encontrava entre nós, apesar do muro que separava o seu mundo do nosso. O muro que supostamente o torna diferente de nós.
Olá, filho. Nós ainda estamos aqui.
Conhecemos quase todos os seus segredos, todos os seus sonhos e anseios. Dizem que coração de mãe não se engana. E também não pense no pai como um ser indiferente, alheio ao desespero silencioso de seu filho, pois sentia e sofria em silêncio. Planejamos você com todo o empenho e carinho de pais que sonhavam com a sua vinda, o grande evento de nossas vidas, mas não para vê-lo mais tarde afogando-se nas próprias lágrimas, um garotinho assustado e com medo da própria sombra, que desde muito cedo tem sentido a maturidade amarga e sombria dos adultos, acreditando que a vida não espera todo o tempo do mundo para ser cruel e miserável.
Pense no pai e na mãe como seus melhores amigos. É verdadeira a nossa satisfação em vê-lo em sua busca por amigos verdadeiros lá fora, confidentes de suas lágrimas secretas e de tudo o que nos conta apenas pela metade ou através de códigos indecifráveis, ditos em voz alta ou por escrito. Mas a gente gostaria de vê-lo buscar um pouco mais da amizade de teus pais. De onde estiver, filho, saiba que, mesmo não contando tudo o que gostaria de nos contar, você tem a nossa atenção, a nossa compreensão e todo o nosso apoio. Estamos com você. Gostaria de poder dizer que sempre estaremos por perto para ouvi-lo, mas temos a amarga compreensão de que isso é humanamente impossível. O tempo passa e um dia seremos poeira. Teus pais, teus amigos e todos os seus amores de vidro, frágeis e humanos. Humanos, frágeis e finitos como você.
Temos conhecimento de sua grande aflição. De sua preocupação com a condição de mortal que aflige a todos nós. Do medo em ter de ver essa mortalidade manifestando-se outras e outras vezes diante de seus olhos... até aquele momento em que nada mais pode ser visto ou sentido. Nada que mereça nosso temor e nossas lágrimas. Nem as suas. Mas não podemos falar por você, que é o único conhecedor das razões que o levam a se sentir afetado por mais esse fato da vida.
De qualquer modo, seus gritos foram ouvidos das profundezas do poço, e aos poucos você foi sendo trazido para fora da escuridão. Finalmente descobriu que o seu poço particular era apenas uma ilusão de sua mente inquieta, que tem sido domada pela intensidade de seus sonhos e desejos, assim como por aquele novo fôlego de vida que vem se acumulando desde o exato instante da morte do seu velho eu. E hoje, mesmo que o futuro seja obscuro e incerto, você tem acreditado nele.
Tudo isso a gente viu e tem visto.
Quase nada tem passado batido.
Temos assistido e participado do teu sucesso, muito maior do que o sucesso de uma carreira profissional ou de meras facilidades na vida, mas o sucesso de seu retorno do mundo dos mortos, o lugar em que sua mente esteve por muitos anos, mesmo quando esteve acordado e respirando. Por muito tempo esteve observando o lado de fora, e tem feito isso de longe, mas agora tem desejado mais e mais fazer as pazes com a humanidade e com você mesmo. É verdade que certos dias são feitos de altos e baixos, o que é natural em nossa condição de seres humanos, mas percebemos que isso tem melhorado aos poucos, conforme mais um novo dia é concedido e acrescentado na contagem de seus dias.
Hoje podemos não saber muito bem onde você ou sua mente estão... às vezes, quero dizer... mas sabemos que hoje você vive sob controle, pelo menos um pouquinho mais do que ontem. Não tem mais olhado tanto para aqueles dias sombrios como se eles significassem o começo do teu fim, mas tem aprendido com a experiência de tê-los vivenciado. E agora só me vem aquela agradável sensação de que nossa missão finalmente foi cumprida. Fizemos a nossa parte.
Filho, a nossa vontade é de te dizer muito mais. Nosso grande testamento. Mas essa carta ficou maior do que o esperado, algo entre frente e verso e um pouco mais. E como provavelmente deve ter percebido, meus olhos verteram lágrimas que borraram a tinta no papel, e se eu tiver de escrever um pouco mais, é bem possível que não consiga ler nem a metade. Sei que vai rir, mas não me importo de verdade com isso. Prefiro ouvir suas risadas a ter de ouvir os seus lamentos durante as longas madrugadas.
Encerro essa carta com algumas orientações.
Filho, tenha um pouco mais de paciência com a gente. Querendo ou não, mesmo com todas as diferenças, você não é assim tão distante e diferente de nós.
E por mais quieto, reservado e defensivo que o pai tenha sido desde sempre, tenha um pouco mais de paciência e compreensão. Tudo o que ele mais deseja na vida é ter um pouco de paz e sossego ao lado da família. E sendo o único membro vivo da casa de seus pais, ele agora só tem esposa e filho e precisa de carinho e atenção.
E eu sei o que você pensa a respeito de ser filho único. É bem possível que a sua vida tivesse sido um pouco diferente se a gente tivesse conseguido um irmão ou uma irmã que pudesse te fazer companhia, a quem pudesse servir de exemplo ou em quem pudesse se espelhar. Com irmãos, as atenções seriam divididas e você se veria um pouco mais livre daquela velha pressão em ter de arcar com todas as expectativas de teus pais, uma pressão afligida a si mesmo, considerando que sempre permitimos que fosse livre. Mas pense um pouco a respeito. Talvez você teria sido uma pessoa completamente diferente. Possivelmente teria se tornado somente mais um ser genérico, não sendo esse ser único e brilhante de quem tão bem ouvimos falar. E isso, sim, teria sido decepcionante. Gostamos de quando vemos as pessoas finalmente aprendendo a olhar por baixo de sua expressão carrancuda e de seus olhos tristonhos. Por baixo da máscara de homem mau que você tem usado para afastar todos aqueles homens que se orgulham de seus olhares superficiais.
Temos orgulho do homem que você se tornou, tão maravilhosamente humano e imperfeito.
Filho, por último, mas não menos importante... Gostaria que você soubesse que te amamos hoje, amanhã e sempre. E essa é a grande herança que reservamos especialmente para você.


Com amor e carinho,
Papai e Mamãe.

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sexta-feira, 30 de maio de 2014

17. Tabu


Perdoe-me por quebrar tuas ingênuas expectativas e por cuspir em quase tudo o que aprendeu desde os teus primeiros dias, mas o meu dever nunca foi o de acariciar a tua cabeça preenchida de velhas caraminholas.

Tenho comigo as mil vozes geladas de antigos fantasmas; e às vezes, das profundezas de meu peito essas vozes sobem à minha boca e sussurram em teus ouvidos, enquanto apoio a minha mão pesada em teu ombro, tal como faz um encosto que não pode ser para sempre ignorado.

Perdoe-me, mas esses fantasmas existem.

Perdoe-me, mas existo.

Aliás, para dizer a verdade, realmente não vejo como necessário o teu perdão, tampouco clamei por isso. Mas não pense que o culpo por tudo, apesar de ser tua – e somente tua – a grande decisão de enxergar a nossa existência como o fim gentil de um longo sono repleto de sonhos confusos. Ou de senti-la como um forte murro na boca do estômago... assim, recebido de surpresa.

Faça sua escolha.

São fúteis as tentativas de me varrer para debaixo do tapete, como se isso fosse me fazer desaparecer ao ser esquecido, do mesmo modo que a poeira nunca desaparece de vez. Sim, talvez suma por algum tempo, muito brevemente, mas logo sou apontado e mencionado de novo por alguém conhecido ou em conversas aleatórias entre desconhecidos nas filas. Nem sempre soo lisonjeiro nos lábios alheios, mas nos dias de hoje isso é um pouco diferente, e, dependendo do caso, às vezes divido opiniões: uns me abominam e outros me defendem, enquanto outros tantos ainda ficam em cima do muro.

Sou muito associado a polêmicas de todos os tipos e naturezas. Pouco ou nada se conclui, mas ainda sou um objeto controverso de discussões nem sempre acaloradas, surgindo muito nas trocas de olhares constrangidos e nas entrelinhas.

Meus mil nomes são sussurrados.

Falam baixo como se falassem de segredos sujos.

Sou o inominável.

É verdade, nem todos os fantasmas são agradáveis. Muitos são realmente perturbadores, e quase que por unanimidade alteram as moléculas de quem ouve seus nomes, então desestabilizam a esse ouvinte hipotético e alteram o seu estado de espírito, seja por indignação ou por uma culpa não confessada. De qualquer modo, não deveriam agir como se esses fantasmas não existissem, mas aconselho a falarem mais a respeito. Seria um grande erro me silenciar quando atendo pelo nome de um desses fantasmas, principalmente quando isso significa a diferença entre a justiça e o efeito da omissão de quem finge não ver e de quem parece não se importar.

Mas na maioria das vezes, a mim são atribuídas tolices ancestrais ou fantasmas que não mais deveriam ser fantasmas, incômodos que doem apenas nos ombros e nas costas de incomodados sem causa, de controladores da liberdade alheia. São indivíduos com causas perdidas, mas ainda não sabem ou não querem admitir a derrota.

Pensam em mim como um princípio de moral e decência, como um velho discurso de tradições a serem mantidas, um acalentador dos supersticiosos, uma muleta para os ignorantes.

Sou conveniente para muita gente. Muitos prosperam e assumem uma soberania baseada em ideias que consideram intocáveis, enquanto outros tantos acreditam neles e sustentam tais ideias por viverem no medo. Nenhum problema com isso, é claro...

Pelo menos até o dia em que o homem vê os estilhaços de seu próprio teto de vidro.

Vemos, então, a queda de muitos homens, grandes e pequenos, quando eles veem suas convicções sendo implacavelmente esmagadas. Mas ao invés de aprenderem com isso, muitos se perguntam onde erraram antes mesmo de tentarem encontrar a si mesmos.

E assim, o mundo continua girando na submissão aos indivíduos de mente fechada.

Isso é o que acontece por esquecerem de fazer uma coisa não muito simples, mas possível; um mal necessário que significa a diferença entre a liberdade e a continuidade da tradição de me verem como uma sombra que paira sobre o homem:

Estou aqui para ser quebrado.

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segunda-feira, 26 de maio de 2014

16. Expectativas


Vejo a nós dois, meu caro amigo, folgados em espreguiçadeiras e assistindo ao pôr do sol.
Nenhum pensamento vem à mente, apenas o silêncio quebrado de leve com as ondas do mar. Fugimos da loucura, do caos, dos gritos e da fumaça da metrópole, e então sentimos a maresia acariciar nosso rosto ao fim do dia. Isso é o futuro. Pode ser visto de muito longe, no horizonte além-mar e distante do alcance de nossos olhos, mas que de qualquer modo ali ainda está.
O tempo caminha em um ritmo levemente desacelerado, eternizando a imagem e o momento como que na contemplação de uma bela pintura viva. De perto vemos o sol descendo e sumindo, visão não mais obstruída por torres altas e cinzentas, mas livre.
Livre como nossos espíritos.
Dizem que o tempo voa quando estamos bem acompanhados, mas isso é um pouco de ilusão das grandes cidades, onde o dia parece durar bem menos que o tempo entre o bater das asas de um beija-flor. Você não sente, mas a vida cria asas e foge de suas mãos.
Preocupações e necessidades, as pessoas deste lugar também as carregam, mas o senso de urgência desaparece aos poucos na calmaria, no mormaço e na brisa.
Isto é vida, meu amigo.
Paramos o tempo e o observamos.
E às vezes lançamos comentários soltos a serem arrebatados pela ventania.
Dispensamos os sapatos e marcamos a areia com as nossas pegadas.
E nos tornamos livres... de novo, livres como nossos espíritos.
Neste lugar, abandonamos todo o pudor exagerado das outras cidades, grandes e pequenas, com aquela velha necessidade de escondermos nossas supostas falhas com um excesso de pano, com os maneirismos e as vaidades habituais. Neste lugar, somos quem somos, ou algo próximo disso. Todas as belezas são naturais, mesmo as rejeitadas conchinhas quebradas.
Pode não ser o lugar mais belo do mundo, mas é o meu novo lar.
Minha enorme caixa de areia com mil e uma novas possibilidades.
E maior que a minha velha caixa branca de maravilhas guardadas.
Isso é o futuro, meu caro amigo.
Fugimos da loucura, que vem ao nosso encontro somente nas altas temporadas com os seus turistas e suas músicas altas. Mas tudo bem. São suficientes as demais noites bem dormidas. Somente os cães, muito sensíveis aos eventuais e isolados barulhos na calada da noite, com os seus latidos eles quebram o silêncio e gelam a nossa espinha naquele momento em que tentamos imaginar o que tão subitamente teria atraído sua inteira atenção.
Quando as músicas e os fogos de artifício invadem céus e ruas, no entanto, eles não podem correr, e assim os ganidos e latidos dos pobres acorrentados são abafados pelo zumbido.
Não somos perfeitos, é verdade.
Não somos assim tão diferentes dos turistas habituais, pois o homem moderno carrega os frutos da civilização – tanto os bons como os maus – para todos os lugares. Mesmo as cidades do campo não são mais silenciosas. E nas areias há palitos e garrafas de vidro enterrados, mesmo em dias nublados, menos tumultuados de mesas, guarda-sóis e peles queimadas.
Mas temos muito a aprender na contemplação do que restou de bonito neste mundo.
Também vejo um castelo de areia parcialmente arruinado, obra de algum garoto que esperava construir algo tão perfeito, mas que logo viu essa perfeição ser desmanchada pelo avanço da maré. Tento imaginar a frustração estampada em seu rosto, sua vontade de desistir. Desistiu, mas outros tantos tentariam de novo, indo até o limite de sua vontade em realizar um sonho.
Pensando nisso, mas vindo como um gesto inesperado, com o dedo começo a escrever palavras soltas na areia, logo ao lado do castelo arruinado. Elas nada significam para você agora, meu caro amigo, mas logo mais significarão. Quando finalmente voltarmos para casa, terei algo novo a dizer, uma nova ideia transferida para o papel depois de tamanha inspiração que sinto neste lugar. Com a mente, o corpo e o espírito mais leves e purificados pelo sal da água, afastado das enormes bolhas poluentes, não há como me sentir pouco ou nada inspirado.
E então inclino um pouco o meu corpo para o lado, e meu dedo rabisca mais palavras ao lado das demais, e então...
Derrubo a mim mesmo da espreguiçadeira.
Sim, eu caio de rosto na areia.
De não muito longe, eu já posso sentir a tua gargalhada chegando aos meus ouvidos. Ouço você beirando à histeria, e por um breve momento eu considero o exagero da tua reação. Mas neste lugar, diferente de tantos outros, eu estou um pouco mais livre do pavor que sinto de ser alvo de um enorme constrangimento. A vida é curta demais para a gente se importar com isso. Tudo o que eu faço é erguer o meu rosto, cuspir um pouco de areia e olhar para você.
E assim eu rio por último. Rio junto.
E o sol ainda sorri enquanto cede espaço para a lua poder brilhar sob a sua luz, enquanto as ondas do mar seguem o seu rumo, apesar de nós e nossas risadas.
Estou contente.
E eu quero dividir este contentamento com você.
Tudo isso eu já consigo ver de dentro da caixa branca.
Pois esse é o futuro, meu caro amigo.


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domingo, 20 de abril de 2014

15. Obsessões

Nascer enquanto outros tantos querem morrer, respirar, aprender a se comunicar, alimentar-se bem, dormir à noite, não dormir quando o luar banhar de luz a outras tantas possibilidades ocultas, sonhar e lembrar-se dos sonhos, dormir para retomar os sonhos inacabados, amar e ser correspondido à altura ou além, odiar e amar odiar, não ser abandonado, sempre ter companhia, querer viver solitário, fazer o bem a todo custo – mesmo quando a bondade significa um mal inconveniente para os demais, mesmo dispondo das ferramentas e dos motivos errados para construção do bem, quando a bondade é egoisticamente conveniente –, a sede de justiça, de fazer jus às expectativas, as boas e as más, não ser feito de bobo, nem sofrer com a zombaria dos tolos, a obsessão pela simetria, por seguir os padrões, seguir a moda, querer ser diferente, ou bizarro, aquilo que chamam de anormal, se fazer de medíocre para ser visto como um fantasma, um ser invisível, gritar e querer aparecer demais, querer ter razão, ter o controle de tudo em suas mãos, perder o rumo e a direção como quem diz “nada mais tenho a perder e nada mais poderão esperar ou cobrar de mim” e ainda não querer se decepcionar, preencher as lacunas, os espaços vazios, o silêncio, encontrar um espaço que ainda esteja vazio, ter algo mais a declarar, o direito libertino de ter a liberdade de expressão, querer rimas nas canções quando tudo o mais ao redor já parece desafinado e destoante, rimar amor e dor, felicidade e maldade, voltar no tempo, avançar no tempo, tentar não repetir os mesmos erros, corrigir os erros alheios – o costume dos santos pecadores! –, apontar a hipocrisia dos outros, querer ignorar a sua própria condição de humano, voar acima das nuvens e alçar voos ainda maiores, ter uma base, um solo próprio, casar-se, ter filhos, cumprir missões sociais, trabalho, mais trabalho, horário extra, querer ser alguém na vida, seja lá o que isso queira dizer, ter muito dinheiro e pouco proveito, fugir das responsabilidades básicas, tanto das implícitas e lógicas quanto daquelas outras que alguma invisível entidade humana certa vez disse que você deveria ter, e não podemos nos esquecer da pressa, da vontade de querer terminar tudo tão depressa, incluindo a leitura de um livro ou de um longo texto, se considerar a velocidade atual das informações, pular momentos e trechos ou desistir no caminho, e depois querer saber como tudo terminaria, não querer que algo o interrompa antes de se sentir satisfeito, recompensado, ver o fim dos conflitos, o medo de morrer, que é tão forte quanto o medo de viver infeliz, agarrar-se à sanidade, não querer ajuda, agarrar-se à saúde, e não adoecer, almejar a cura... Querer, então, morrer e descansar enquanto outros querem nascer, quando tantos outros nem mesmo isso conseguem, não querer morrer sozinho, morrer e libertar-se da prisão do corpo e da mente, transcender, descansar, calar de vez a voz dos pensamentos, querer fugir do tumulto, dos pensamentos congestionados, fugir das angústias, querer que tudo se conecte e faça sentido, que seja resumido, explicado, e que o universo seja finito, que o mundo se cale e morra com você, buscar, buscar e buscar, não esperando ser impedido por uma interrupção abrupta, querer encontrar uma resposta para tudo, para a vida e a morte, para o agora e o nunca, revisitar o passado, esquecer de viver o presente e temer o futuro, e então, novamente, querer ter o controle de tudo, além da obsessão pelo fim das obsessões, que desregulam o ritmo da vida e distorcem as percepções, e nos tornam obcecados pelo fim da obsessão através de nossos esforços solitários, lutar para dar um fim às intermináveis obsessões – e elas não param mais, mas se proliferam! –, querer sempre ganhar de tudo e de todos, vencer toda a loucura do cotidiano, o desejo perpétuo de ser aquele que é eleito a dar o ponto final

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terça-feira, 25 de março de 2014

14. Síndrome de Hiena


(Ou o mais adequado seria "Complexo de Hiena"?)

Quando as pessoas me veem na rua, elas costumam me perguntar o motivo de eu estar bravo. É a pergunta favorita de pesquisadores, de vizinhos e de outras tantas pessoas que me veem apenas por alguns instantes, principalmente quando estou caminhando e tudo o que quero é cuidar da minha vida; afinal, não estou pedindo muito, não é mesmo?
Que nada! Estou bem, e obrigado por perguntar. Tenho um pouco de sensibilidade à luz e faço caretas por esse motivo, sem contar que eu herdei o semblante sério de meu pai.
Na verdade, eu até sou bem risonho, se quer mesmo saber, ainda que não viva sorrindo publicamente sem ter encontrado bons motivos para isso. Sorrir mostrando meus dentes, então... Isto eu faço apenas sob coação.
Uma amiga certa vez disse que os dentinhos separados dela não são para qualquer um, e bem sei o que ela quis dizer. Não é uma simples questão de esconder algo que não considero lisonjeiro em mim ou de ignorar os grandes benefícios que, sim, eu sei, o sorriso traz à nossa saúde, mas pessoalmente considero o sorriso – ou mesmo o riso – muito mais valioso quando surge pontualmente como um contraponto à seriedade, quando menos se espera, e isto é o que me leva a rir melhor.
Mas banalizaram o sorriso.
Banalizaram as risadas.
Com o tempo, as pessoas se vestiram em pele de hiena.
Ou as hienas vestiram as nossas carcaças humanas, e agora habitam entre nós, mal disfarçando a sua hilaridade gratuita. São criaturas jocosas, essas hienas de plantão!
Não que o riso seja em si um problema, e não é, mas pensando bem, não me surpreenderia de às vezes me surgir o ímpeto de perguntar o motivo das risadas.
De fato, rir é melhor que chorar, como dizem; não há o que discutir a respeito. Contudo, às vezes eu tenho a nítida impressão de que as pessoas não sabem nem do que estão rindo, mas não por serem naturalmente risonhas tal como o Feliz dos sete anões ou o gato da Alice, e sim por uma certa demência que tem o riso como um elemento exigido e desesperadamente garantido, como que essencial para a sua demente existência.
Tudo bem, eu sei que nós aprendemos a rir de nós mesmos e do desnorteio de nosso cotidiano, apenas para citar um exemplo comum. Rir de uma dificuldade sofrida coletivamente alivia a tensão e aproxima desconhecidos que, não fosse a repetição de uma mesma história em comum, talvez nunca dirigiriam uns aos outros palavras, olhares ou acenos silenciosos indicativos da compreensão de algo percebido ou presenciado em conjunto. O riso pela empatia, como a piada interna de um grande grupo. Neste sentido, o riso é saudável e natural.
Contudo, o riso não pode simplesmente preencher o vazio de nossa incompreensão não confessada ou mesmo disfarçar a nossa falta de atitude diante das dificuldades, sendo mais honesto confessarmos a nossa ignorância. Embora, em alguns casos, o riso possa ser visto exatamente como um atestado de ignorância, sendo uma consequência disso, como quando rimos ou fazemos chacota de coisas que precisam ser levadas um pouco mais a sério.
Mas esta é uma questão muito polêmica!
Defensores do riso acreditam que ele deve estar presente mesmo nos momentos em que se faz inconveniente. Isso torna a vida mais suportável.
Tudo bem, eu concordo: o riso pode mesmo ser benéfico.
Isto é, antes de as hienas entrarem em cena.
Você conta uma piada muito boa e é aplaudido.
Você fala sobre assuntos mais complexos, sobre coisas que demandam um pouco mais de contemplação, de reflexão e seriedade, então as pessoas nada dizem... Ou elas dizem que você fala demais. Isso quando não procuram um motivo para rir, mesmo quando a piada parece inexistente! Você pode ver isso com frequência na rede: as pessoas não levam nada a sério, mesmo quando isso se faz necessário, e ainda tentam forçar uma piada, mesmo quando ela não é bem vinda!
Eu sei. Tudo isso parece ser a carta de um indivíduo desprovido de senso de humor, de um ranzinza com a face carrancuda, não é verdade?
Os mais sisudos sentem uma necessidade de justificar seus argumentos reafirmando o que disseram anteriormente, mas os risonhos, estes nunca pareceram sentir a obrigação de justificar a sua risada involuntária.
Repito: é melhor rir do que chorar.
Eu aprendi nesta vida a debochar de mim mesmo e a não ser tão autocrítico, e também aprendi a ter uma leve incredulidade para cima da minha eterna síndrome de perfeccionismo sobre tudo o que faço e a olhar para mim mesmo sob um olhar cínico e rir, o que é muito saudável e quebra a monotonia de tentar ser assim tão correto. Eu aprendi a não ter a pretensão de querer ser o maior exemplo de perfeição, pois ninguém o é.
Repito: é melhor rir do que chorar.
Mas eu pelo menos nunca ouvi alguém dizer que o oposto exato do riso seria o choro!
E eu sei rir.
Conte-me uma boa piada, das mais simples, que são aparentemente tolas, até aquelas originadas no território do inusitado, das mais absurdas, e eu saberei rir.
O ponto nunca foi esse!
Considere isso como uma extensão ao tema da língua ferina e dos dedos afiados. Há uma ligação muito forte entre a síndrome de hiena e a falta de tato no que se diz, com a diferença de que as hienas não existem apenas no mundo virtual, mas caminham entre nós em ambientes públicos, e elas podem ser encontradas das portas para dentro e das portas para fora. E elas podem existir dentro de nós, contagiantes como são.
E as hienas opinarão sobre assuntos sérios como se estivessem contando uma piada!
E as hienas certamente vão rir dentro de uma sala do cinema mesmo durante certas cenas que demandam seriedade ou um pouco de silêncio para fins de efeito de imersão. E elas vão arreganhar os dentes se forem contrariadas. Nem mesmo as hienas suportam por muito tempo o seu próprio sorriso sardônico!
E as hienas falarão de política com um certo ar de deboche, ainda que os diretamente envolvidos com ela tenham o costume de fazer o mesmo!
E elas vão rir, e rir, e rir... pois, quando são contagiadas por essa hilaridade cega e irrefreável, isso é tudo o que as pessoas sabem fazer.
E encerro aqui deixando-lhes um alerta: tenham cuidado com as hienas!
Elas estão em todos os cantos e querem a sua carne e um minuto de sua atenção. Não se deixem enganar por seu eterno sorriso e por sua natureza carniceira disfarçada de senso de humor!

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domingo, 23 de fevereiro de 2014

13. Desconstrução


Quebrar.
Destruir para reconstruir.
Não com as mãos, menos ainda com armas, pedras ou quaisquer outras ferramentas tangíveis, e sim com aquelas nunca vistas, mas percebidas e adquiridas conforme a tua experiência de vida se torna ainda mais crescente.
Destruir de dentro para fora e não de fora para dentro.
Destruir-se.
Quebrar a si mesmo em mil pedaços; não literalmente, é claro, mas de maneira figurativa.
Triturar velhas ideias, fragmentá-las.
Transformar esses fragmentos em um grande mosaico de novas percepções.
Quebrar tudo de novo e mais uma vez.
Processo repetitivo e reciclável.
Ligar os pontos e costurar as pontas soltas até que se soltem novamente.
Preencher as antigas lacunas, assim como as mais novas e as demais que surgirão futuramente, nunca desconsiderando que outras tantas ainda serão deixadas para trás.
Preencher o vazio com a voz do silêncio pertinente durante os intervalos necessários, sendo a melhor escolha aquela de soltar o verbo apenas quando há algo melhor a dizer.
Tentar escrever reto por linhas tortas, quando tudo o mais parece ser escrito torto por linhas alegadamente retas.
Eis a grande arte desenvolvida por pensadores, mesmo por aqueles não tão famosos.
Pensar para fora e além de seu tempo.
Para fora de seu corpo.
Ideias que vivem aprisionadas em corpos e mentes, elas tentam sair de algum modo. E para alguns, como eu, a escrita é a grande chave libertadora.
Fazer a alma respirar.
Transformar os rabiscos e rascunhos caóticos da caixa branca em novas ideias livres.
Limpar a caixa branca e abrir espaço para novos rascunhos e, consequentemente, para novas ideias, ideias novas em folha.
Ideias que podem mudar tudo... ou não.
Ideias que desafiam o suposto bom senso dos que vivem em uma zona de conforto.
Ideias que muitas vezes não são pronunciadas, mas sentidas no ar.
E ideias que outros tantos conceberam anteriormente, mas poucos traduziram.
Tentar alcançar e atingir a tantos com a sua capacidade de expressão, usando as ferramentas que possui à sua disposição com ousadia, mas, acima de tudo, com a devida sabedoria.
Quebrar paradigmas.
Plantar a semente da reflexão em um solo supostamente árido.
Tentar fazer isso com a sua alma expressada.
As pessoas captam as ideias à sua maneira, de acordo com a sua visão particular, mas algo bom pode vir disso. Variações da mesma ideia, talvez com o acréscimo de perspectivas interessantes não consideradas anteriormente, elas surgem e levam o conceito para frente.
Esta é a nossa grande missão, sendo ela utópica ou não.
Quebrar.
Destruir para reconstruir.
Destruir de dentro para fora e não de fora para dentro.
Reaprender.
Transformar.
Levar o mundo e a humanidade à queda definitiva da Torre de Babel, aquela barreira invisível que sempre dificultou a comunicação entre os semelhantes.
Pois sonhar nunca é demais.
E querer tornar o sonho real não deixa de ser mais uma tentativa decente de quebrar as barreiras impostas por este mundo absurdamente concreto e sem imaginação. Os sonhadores são aqueles com o potencial de transformar o futuro.


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