quinta-feira, 9 de março de 2017

39. A Voz do Silêncio

O que é? O que é?
Diga seu nome e ele desaparece.
O que é? O que é?
Ouça. Pode ouvir o mundo suspirar? Não, não quando os gritos e sirenes disputam ouvidos e enchem o dia de vibrações discordantes. Ouça. Se conseguir por um breve momento, ouça.
O Silêncio, ele tem voz própria.
Não se vê um rosto por onde se ouve esta voz.
O mundo está concentrado no ritmo do maquinário, dos mecanismos que o movem, nos assuntos que não envolvem quem procura encontrar o silêncio, que, silencioso, ninguém sabe ouvir.
E os rostos que encontramos e vemos por entre as nuvens de fumaça, estes rostos flutuam apressados. A caminho de seus destinos definidos, porém incertos.
O silêncio está em todos os lugares, mas é somente à noite que ele sai para brincar, encontrando quase ninguém. Ninguém ouve seu chamado. Todos dormem e se entregam dos sonhos intranquilos, ruidosos, nebulosos e envoltos em estática. Nem nos sonhos o silêncio é convidado.
Ouça. Consegue ouvir? Sim, há uma voz por aí, por aqui, lá, mas ninguém escuta. O silêncio incomoda. Não gostam de ficar a sós com os próprios pensamentos.
Falam, e gritam, e cantam, e rangem os dentes, tudo para não ficarem em silêncio.
Mesmo na quietude da noite mais vazia, a voz soa entre as paredes, árvores e trilhas de concreto. Cantarola no soprar dos ventos, no farfalhar das folhas de outono e no cair das lágrimas de quem chora em segredo. No desespero dos andarilhos solitários, nos pés que se arrastam sobre o mundo e por ele vagam.
Preenchem o silêncio e manifestam tudo o que ele tem a dizer, mas não conseguem ouvir.
Ouça o silêncio, que acaricia a pele do rosto quando você o aceita de graça, que o estapeia quando você o rejeita ao rejeitar a si mesmo, fugindo e correndo em direção ao barulho produzido pelo desespero. Ouça o que ele tem a dizer.
Sinta sua presença.
O que ele é para você?
Amigo ou inimigo?
O silêncio oprime.
O silêncio toca.
O silêncio abraça.
O silêncio esfaqueia.
O silêncio existe, mas não querem que você acredite.
O silêncio não é violento, nem invade casas e ouvidos, não arromba portas nem quebra vidros, mas espera.
Ouça.
Não tenha medo de não vê-lo, de não encontrar quem dê rosto ao silêncio que se ouve na proteção de suas paredes. Ouça a voz que não aparece, entre os espaços que nem sempre precisam ser preenchidos. Não necessariamente.
Ouça.
Não ouve.
Nada ouve.
Mas não quer dizer que não está por aí.
Você ainda pode sentir a vibração de sua voz entre as notas musicais que soam no cotidiano de um mundo ordinário.
O que é? O que é?
Diga seu nome e ele desaparece.
O que é? O que é?


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quarta-feira, 8 de março de 2017

Fora da Caixa #5

Bom dia. Boa tarde. Boa noite.
Bem vindos ao Fora da Caixa.

Lembrando: neste espaço eu divulgarei textos e demais materiais de minha autoria que tenho publicado em outros websites/espaços.


Desta vez divulgarei os cinco últimos artigos meus que foram publicados no PORTAL DE FORMAÇÃO E AUTODESENVOLVIMENTO



Que tal relembrar?

Do começo ao fim... Sempre esperam (e esperamos) muito de nós;

O que você prometeu ao seu eu mais jovem e nunca cumpriu?

Já revelarei a verdade logo antes de início. Como lidar como este fato?

Porque o sorriso é um "santo" remédio.



Como sempre peço, leia, e, se possível, avalie e comente no respectivo site [em que o texto foi publicado] ou mesmo compartilhe/divulgue. Grato!
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quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Caixa de Cartas #2

Carta ao serial killer mais bem sucedido da História


Em qualquer lugar do mundo, 5 de janeiro de 2017.


Enquanto abraçamos uns aos ou outros, ou vibramos ou aplaudimos e olhamos deslumbrados para o céu iluminado somente pela chuva de fogos de artifício, em outros lugares alguém nasce e alguém morre. Milhares nascem, milhares morrem. O nascimento e a morte sempre caminharam juntos, e não seria diferente na passagem de um ano para o outro. Um ano terminou para que outro apenas começasse. O mesmo jogo se repete.
Você não foi querido. Nem chegou perto de ser.
Eu não conheço seu rosto, mas sei que esteve por aqui. Ainda posso sentir seu cheiro, que apenas as chuvas de janeiro podem levar embora.
Eu não o conheci por um rosto específico, mas nos lembrávamos de sua existência a cada nome ou rosto na TV.
Mas agora está escondido. Saiu ileso, mas não sem ter deixado rastros.
Infelizmente, eu o conheci e vi sua sombra.
Vi suas obras.
Você não esperou nem a passagem de duas semanas para levar David Bowie, Severus Snape e Shaolin. Cometeu crimes perfeitos, aproveitando-se de suas duras batalhas físicas. Mas seu gosto pela morte não parou por aí.
A finitude dos grandes e conhecidos foi declarada para o mundo.
Consta na sua lista diversos nomes. Prince, George Michael, Greg Lake, Leonard Cohen, Willy Wonka, Professor Girafales, Princesa Leia e Debbie Reynolds... Muitos nomes que tiveram suas vidas ceifadas seguiam o mesmo padrão: o ano de 2016.
Um número teria o poder de pertencer à mesma galeria infame de nomes como Jack, O Estripador, H. H. Holmes, Zodíaco e a Condessa Bárthory?
Não que a morte de uma celebridade seja mais relevante que a de inúmeros anônimos pelo mundo. Pensemos no tanto de pessoas que morrem diariamente nas guerras, nas que morrem de fome e pela violência nas ruas mais pacíficas e até dentro de casa. Não costumam ser homenageadas. Mas basta ligarmos a TV diariamente após o chá da tarde, que vemos a exploração da miséria humana por alguns pontos de audiência. É o mais próximo de uma homenagem que muitos terão.
Mas um mesmo ano que leva Professor Girafales, Willy Wonka, Malvo e Fofão não pode ser um ano qualquer. Nomes que marcaram presença na infância e adolescência de muitos da minha geração. Os personagens podem ser imortais, mas ver seus intérpretes saírem de cena representa o fim de uma era. Também estamos morrendo.
Mas não só de mortes você foi feito. (É, eu sei que é estranho tratar um ano por “você”.) Você também foi um semeador de discórdias, de separações, de tribulações. Você foi capaz de tudo.
Sabe o que dizem sobre as cores das roupas? Não acredito nisto e também não tento mais repetir o gesto apenas pela tendência. Usei branco na ocasião de seu esperado nascimento, e olha no que deu.
Enquanto abraçávamos uns aos outros, comemorando a chegada de um novo ano, estando eu agora de camiseta azul e bermuda rasgada do lado, também respirávamos aliviados pela sua ida, indiferente aos nossos risos e lágrimas.
Os sentimentos cabem somente aos mortais.
Hoje, cinco dias depois, eu apenas alimento a esperança de que este novo ano seja bom. Não o melhor de todos, como sempre esperamos pelo ano seguinte, mas surpreendentemente bom.
Sabe como é, as pessoas ainda insistem em apostar as fichas em uma renovação de ciclos, nas mudanças operadas de fora para dentro e não o contrário. Somos humanos, e isto é o que fazemos de melhor.
Quanto a você, 2016, por mais que não possa ser punido, por já pertencer ao passado, mas possivelmente tendo trazido crias que perpetuarão sua obra maligna através das eras que estão por vir, os anos vindouros, pode ter certeza de que não sentiremos saudade. Aposentou-se com nossas lágrimas, e não o queremos mais.
Mas fica o aviso: não ouse se esconder em 2017. Que este novo ano não repita seus passos. Fique longe dele! Vamos cuidar para que ele não se torne uma cópia ainda mais letal de seu antecessor.
Eu sei. Não podemos controlar um possível gosto hereditário pela morte, mas ainda podemos moldar este ano novo para algo mais tranquilo e agradável. Assim espero. Assim eu quero.

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Anteriormente:

Caixa de Cartas #1 (Carta ao Papai Noel)

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sábado, 24 de dezembro de 2016

Caixa de Cartas #1

Carta ao Papai Noel



Em algum lugar do mundo, 24 de dezembro de 2016.

Querido Papai Noel,
Eu sei que você não existe.
Isto, é claro, não me impede de ainda fazer um pedido especial para esta noite. Por favor, entenda. Minha própria mãe se esforçou para que meus olhos se abrissem para uma realidade obvia: não existe magia neste mundo; não o tipo de magia visto em filmes de fantasia.
Eu o vi quando era menino. Eu o vi várias vezes, em cada esquina diferente, e suas muitas aparições eram mágicas e misteriosas. Esperava ganhar presente, mas minha mãe se aproximou de mim e publicamente afirmou que você não existe. Foi um grande erro. Eu o vi andando pelas ruas e distribuindo doces.
“Olha, mamãe!”, eu disse. Apontando meu dedo na direção do bom velhinho, eu disse com algum entusiasmo: “Olha! Papai Noel existe, sim.” E disse mais, para todos ouvirem: “Ele existe, sim! Olha ele ali!”
Eu tinha cinco anos.
Minha mãe. Ela não conseguia esconder seu constrangimento. Meus olhos brilhavam, e eu não acreditava na mentira contada por ela.
Papai Noel existe, sim; acontece que, às vezes, ele não tem dinheiro para nos dar um presente. E ainda querem inventar de fazer o tal do jogo do amigo secreto, esses adultos que mal se conhecem.
Mas eu sei que você não existe. Não de verdade. Nem a sua versão movida a pilhas funciona direito. E você fica ali, em silêncio, mantido assim em seu lugar atrás do vidro.
De qualquer modo, você ainda é um dos grandes símbolos desta data, ao lado do peru de Natal, dos panetones e das uvas passas no arroz. Seus presentes, então, ainda são esperados com verdadeiro entusiasmo. E enquanto muitos nem conseguem sonhar com um amanhecer mais tranquilo, aos poucos nós nos esquecemos do verdadeiro sentido do Natal. Não que eu esteja reclamando da comida e dos presentes; às vezes eu mesmo não sou assim tão diferente.
Não faço um, mas alguns poucos pedidos especiais. Espero que não seja pedir muito.
Papai Noel, você poderia trazer novos sonhos e magia ao mundo? Perdi alguns de meus sonhos ao longo do caminho, e eu não sei mais como voltar para resgatá-los.
Papai Noel, você poderia resgatar a dignidade daqueles que são cuspidos todos os dias? Nem estou falando somente de quem dorme nas calçadas, mas também daqueles que, mesmo no conforto de suas casas, são odiados em segredo.
Papai Noel, você poderia nos lembrar da bondade não apenas neste dia? Sentimos a solidariedade bater à porta do coração, mas não nos levantamos enquanto mastigamos. Que a falta de boa vontade não mais existisse!
Não fosse pelas tias distantes e suas perguntas inconvenientes sobre nossas vidas amorosas, eu gostaria que fosse Natal todo dia, se isto trouxesse a bondade para os demais dias. E que fosse uma bondade verdadeira, e não a lembrança breve de um dia especial. Que todo o mundo realmente quisesse o melhor pelo próximo. Estaria o mais próximo possível ao sentido original do que estamos comemorando.
Estou pedindo demais?
Eu sei que você não existe, a não ser quando o vestimos ou assumimos o seu papel. Não existe um velhinho voando de trenó pelo céu e descendo chaminés de lares felizes. Até a fantasia de Papai Noel não sai de graça. Ho, ho, ho!
Mas eu insisto, e ainda escrevo esta carta.
Espero não ser velho demais para pedir presentes. Eu sei com toda a certeza que já não sou mais tão jovem para esperar por eles. Mas não custa sonhar.

Feliz Natal!

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sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Caixa de Cartas #0

Itanhaém, 23 de dezembro de 2016.

Bom dia. Boa tarde. Boa noite. Tudo bem com vocês?

Estou de volta com uma novidade. Espero que vocês, leitores deste blog repleto de mensagens e pensamentos viajados (que, no entanto, eu me esforço ao máximo para dar algum sentido), apreciem.

Caixa de Cartas é o título da mais nova seção do blog. Não será muito diferente dos textos tradicionais, com suas reflexões; mas aqui eu publicarei mensagens necessárias a um momento específico, desabafos, numa expressão um pouco mais espontânea de sentimentos a algum acontecimento pontual e momentâneo (tanto que as cartas serão datadas), entre outras cartas neste sentido.

Com esta nova seção, a minha intenção é a de aumentar a frequência de publicações no blog.

Não faço deste espaço um diário, mas uma plataforma concentradora de ideias, num projeto mais autoral.

Tendo isto em mente, devo dizer não é todo dia que a gente consegue ter ideias sobrando na caixa, e eu mesmo costumo trabalhar cada ideia ponderadamente, refletindo muito, montando e remontando sua estrutura e a ordem das ideias. São esforços que aplico para apresentar a vocês algo de qualidade, em textos bem fluídos.

Levando isto em consideração, tive a ideia de adicionar mais uma seção no blog, ainda que eu não tenha em mente a intenção de publicar cartas numa frequência específica para publicar apenas por publicar. Quero publicar um texto, mesmo sendo uma carta, apenas quando eu tiver algo para dizer, como sempre foi. Mas a seção já ajuda o blog ao diminuir os longos períodos vazios entre um texto principal e outro. E há, é claro, a seção Fora da Caixa, na qual concentro textos meus publicados em outros sites.

Espero mesmo que apreciem a novidade.

A primeira carta virá em breve.


Que todos vocês tenham um ótimo dia! 


Assinado, 
Rodrigo Rufino.

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segunda-feira, 21 de novembro de 2016

38. A Sombra

Por toda a vida eu fui seguido.
Por ruas movimentadas, por becos e corredores estreitos, meus passos foram seguidos de perto. Perto até demais. Todos os meus movimentos, eles foram observados por uma acompanhante silenciosa, que sempre me seguia sem maiores comentários. Ela ainda me segue.
É bem provável que ainda me siga, mesmo depois, mesmo quando eu já estiver inconsciente a respeito de quem já fui algum dia, quando eu estiver dando meus últimos passos arrastados, formando a silhueta rastejante de um homem que já viu dias melhores.
Minha única companheira perpétua, a minha sombra, ela se ausenta apenas quando eu sigo pelos caminhos escuros. Ou se camufla na escuridão, eu ainda não sei dizer com absoluta certeza.
Quando fecho meus olhos à noite, ela também desaparece; nos sonhos, mal e mal me lembro de ter uma sombra. E, ainda assim, não me abandona em minhas aventuras.
No meio do caminho desta grande aventura chamada Vida, ao longo desta estrada há muitas outras sombras à espreita, de obstáculos aqui e ali. Sombras por todos os lados.
O que se esconde por trás destas sombras?
Olho para elas e vejo uma fábrica de pequenos e grandes medos, de fobias e neuroses guardadas numa caixa. Vejo mãos com garras feitas de galhos podres arranhando a vidraça em noites tempestuosas, refletindo-se na parede com a explosão de relâmpagos consecutivos. Minha própria sombra treme quando refletida.
Não importa quanto tempo tenha se passado, ou o quanto tenho evoluído e tentado, tentado e tentado, a aventura sempre me parece difícil, e os caminhos me levam a andar em círculos. Encontro e reencontro os mesmos obstáculos medonhos, e, como outros animais costumam fazer, eu paro até conseguir me sentir seguro outra vez.
Ainda que eu ande pelo vale da sombra da Morte e da Vida (e de todas as demais incertezas da Vida, não da Morte, que é a única certeza que temos), minha própria sombra ainda me acompanha, ou pelo menos me espera do outro lado de um trecho especialmente obscuro.
Mas algo me diz que até a minha sombra me teme e fugiria de mim se pudesse.
Digo, quando não estou brincando de fazer bichos de sombra, permitindo-me alguma diversão ao longo do caminho, estou seguindo pelo vale e sou tragado pela escuridão que me faz andar em círculos até poder voltar para casa.
Existe uma sombra maior sobre a minha existência, feita de tendências e fobias repetitivas, pegajosa como uma sombra literal, e que repele meus amigos desde sempre.
Esta outra sombra não tem forma nem nome específico, mas tem o poder de tirar meu sorriso quando quero sorrir. Torna-me culpado por querer sorrir, por querer companhia para ter com quem dividir minhas pequenas alegrias. Torna-me mais e mais introspectivo, mesmo quando quero me expressar, e fico na companhia de meus pensamentos e, naturalmente, de minha sombra.
Há algo de muito errado comigo para sempre ficar sozinho, sentindo-me o preterido, o favorito de ninguém? Eu não sei dizer com certeza, mas sempre foi assim. Nunca me senti cercado de verdade pelas pessoas com as quais me importo. Gosto de ter meus momentos, mas também gosto de ver o sorriso de outro alguém.
Cada pessoa carrega sua própria sombra, como um encosto que a envolve num abraço de amigo traiçoeiro.
Evoluímos — ou assim tentamos — e mudamos ao longo da aventura; mas há no caminho uma sombra maior que sempre nos confunde, além das menores que a acompanham e se camuflam no meio desta.
Como um círculo vicioso, sinto um incômodo que me impede de seguir em frente sem carregar aquele sentimento de repetir sempre a mesma história desinteressante.
Então paro e penso:
Do que é feita a sombra? Da ausência parcial de luz quando algum obstáculo a bloqueia. Para existir a sombra é necessário existir a luz. Lembre-se de ter ouvido algo sobre a escuridão ser feita da ausência de luz? A luz existe e existiu primeiro.
Então, o que é esta sombra maior, mais escura que as outras?
É a sombra de mim mesmo. Sou o obstáculo no meio do meu próprio caminho. Estou bloqueando a luz que se derrama às costas de minha própria existência.

Mas, em vez de olhar para a sombra, eu poderia muito bem olhar ao redor, notando toda a luz que ainda resta.

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quarta-feira, 28 de setembro de 2016

37. Panorama

Céu azul e distante, porém perto o suficiente para beijar o topo das árvores. O farfalhar de folhas ao vento, desprendendo-se dos galhos e caindo, uma a uma, em câmera lenta. Mil mãos invisíveis acariciando-me o rosto com toques gentis, ainda que gélidos. O sol um tanto tímido, indeciso se fica ou se já vai embora por hoje, iluminando o suficiente para tornar mais brilhante o verde das folhas que ainda resistem à força dos ventos. A sinfonia desordenada de muitos pássaros escondidos, misturada ao canto ritmado do grilo que se adiantou — uma mensagem indecifrável da natureza no meio da tarde. Marteladas distantes, intervalo, marteladas distantes. Hélice de helicóptero. Farfalhar de folhas ao vento. Mesa de café, aroma adocicado. Ronco de motores. Aroma de café. Tudo isto eu sinto e ouço, tão real como eu sou.
Quando olho para cima, o céu desmancha o que restou de seu sorriso tímido. Quando olho para cima, contemplo uma face enorme, bela e gélida, quase severa. O céu foi tomado pelas nuvens. Há mais nuvem do que céu. Por um momento, o mundo aguarda em silenciosa, porém ansiosa, expectativa.
É a tempestade que se aproxima.
Fecho os olhos e depois acordo numa tarde ensolarada. Tudo se foi com as águas. O retrato agora é outro.
O mar se revolta, mas a brisa que vem dele é suave ao toque. Sirvo-me de sol e silêncio. Setembro. Ainda não há muita presença humana aqui perto, e assim dormi ao contemplar o mar e a mulher que tentou contê-lo numa fotografia panorâmica. Adormeci sob o sol. Acordei e ela não está mais ali com sua câmera, nem o garoto que empinava pipa, nem os pescadores com uma rede enorme.
Quando olho para cima, o céu não está mais sorrindo. Esbraveja. Suas primeiras lágrimas isoladas vêm ao meu encontro. Corro, procurando abrigo. Encontro sob a marquise de uma loja na avenida principal, fora da praia. O choro se transforma numa torrente de sentimentos desmanchados. O mundo chora, desabafa. E o céu desaba.
Olho para as minhas imperfeições, para as minhas mãos ressecadas, mas que agora estão borradas de minha própria substância. Com as lágrimas do céu em minhas mãos, elas se desmancham, e suas cores se derramam no chão cimentado, do mesmo cinza que desmancha a face enorme do céu. Olho para o mundo e vejo suas cores se escorrerem. Pesadelo.
Mesa de café, aroma adocicado. Ronco de motores. Aroma de café. Tudo isto eu sinto e ouço, tão real como eu sou.
Tudo o que eu tive foi um pesadelo de olhos abertos. Foi? Sim. Foi isso. Eu acho que foi. Num momento eu pisco, no outro vejo o mundo se desmanchar em cores borradas. Quando pisco de novo, as lágrimas já se foram, e as cores estão desbotadas.
Seria tudo assim tão real? Estou realmente vendo o que eu vejo? Estou realmente ouvindo o que eu ouço? De verdade eu sinto tudo isto? Os sabores são reais? E as histórias que não estão nos livros... Também são?
Na tentativa de descrever o mundo como eu vejo, entre as molduras de meu campo de visão, penso que também estou sendo descrito como sou visto. Sou parte de um grande cenário — além das árvores, das folhas, dos grilos e dos pássaros. Sou um pequeno ponto perdido numa vista panorâmica visualizada por outro alguém de olhar aguçado.
Olho para as minhas mãos, e elas foram devidamente restauradas. O ressecamento na pele continua ali, as imperfeições não estão fora do lugar. Nas palmas, a linha da vida que lentamente se apaga. Estou de volta.
Mesa de café, livros ao lado, aroma de café, tela branca na minha frente, letras que aparecem magicamente.
Descrevo o microcosmo de meus sentidos mais primários. Minha mente transforma meus sentidos em significado. Traduzo em palavras o que eu vejo, ouço, sinto, saboreio e cheiro. Minha mente desenha com palavras o que vejo, o que imagino, o que acredito, além das coisas que eu não vejo. Pinta um retrato limitado, com imagens extraídas de uma imaginação ilimitada.
Você não vê o mesmo que eu, meu amigo imaginário. Minha amiga imaginária, você não sente o mesmo que eu. Nem queira.
Olhe à sua volta, e diga-me: o que tu vês?
Uma projeção. Uma grande pintura em movimento de um imenso sonho de olhos abertos. Magia num mundo não mágico.
Olho para o céu e me vejo dentro de um globo de neve, com a diferença de que aqui não há flocos brancos e gelados, mas grãos de areia. Sou sacudido todos os dias dentro deste globo translúcido. A face enorme do céu se oculta sob o manto de escuridão de uma noite que se inicia. Vozes. Marteladas. Hélices. Logo ficarão em silêncio, e somente os grilos, morcegos e latidos estarão presentes.
Um dia após o outro. Eu acordo, o dia termina, eu acordo de novo. O mesmo retrato, apenas os detalhes mudam. Reparos são feitos. Erros e acertos. O mesmo céu sorri, o mesmo céu chora; às vezes, no mesmo dia. O perfume de uma noite quente. O frescor de um novo dia. Um retrato com cores, cheiros, sons, sensações e sabores. Todos diferentes.
Pensando nisso, deito à noite e fico imaginando o que irei sonhar.
Então, eu penso: mas, e se o sonho for a realidade, e não o contrário? E se isto aqui for um pesadelo, um mundo que se diz real, mas que, na realidade, comporta-se de modo mais surreal que todos os meus sonhos juntos?
O que garante a autenticidade do sabor deste café de aroma tão doce? O que garante que este som ao redor de mim não vem de meu sonho e foi deixado lá, tocando enquanto eu acordava? Quem garante que, quando me vejo dentro de um sonho, eu não estou me vendo em minha verdadeira existência?
Perdão. Estou devaneando.
Fecho os olhos e espero o sono vir.
Quando abro os olhos outra vez, sou transportado para o mesmo pesadelo de mundo desmanchando-se sob as lágrimas de um céu que lamenta estar sobre um mundo tão barulhento e inquieto, que abafa os próprios sons naturais. Olho para as minhas imperfeições, para as minhas mãos, que estão outra vez borradas de minha própria substância. Sou um homem feito de tinta, assim como o resto do mundo.
Estou acordado?
Estou dormindo?
O pesadelo continua.
O meu verdadeiro eu é este que se abrigou da chuva e viu o mundo se transformar, ou aquele que, sentado à mesa de café, viu a aproximação da tempestade, no início de tudo? Sou uma soma de ambos? Ou não sou nenhum?
Olho para cima e enxergo um rosto entre as nuvens. Pareidolia? O choro é interrompido, mas não a trovoada. Vejo uma mão de nuvem se esticar ao meu encontro. Devo estar na imaginação deste ser que toca em minhas mãos borradas de tinta com as cerdas de um enorme pincel, ou o pintor deve estar na minha. Sou um reflexo dele ou ele é o meu? Ele me fez à sua imagem e semelhança ou eu o fiz à minha?
É o que muitos se perguntam todos os dias.
O mundo é um grande quadro sem moldura, contido dentro de outra fotografia ou pintura maior, dentro de uma fotografia ou pintura ainda maior. Meu mundo, mundo além de mim e universo. Você pode ir o mais longe que puder, viajar pelo mundo, pelos planetas, pelas galáxias, e, ainda assim, não encontrará a moldura.
Olho para cima, depois de ter visto minha mão ser restaurada pelos toques suaves de pincel. Ignoro a ideia de parecer louco. Grito em público, olhando para o céu.
Grito uma pergunta: Você é real ou fruto da minha imaginação?
Silêncio.
Então, uma voz. Uma voz reverberante. A voz do trovão. Devolve a minha própria pergunta: Você é real ou fruto da minha imaginação?
Uma pergunta que fica no ar, sem resposta.
É neste momento que eu abro os olhos.
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