terça-feira, 16 de junho de 2015

24. O Show Deve Continuar


Noite inquieta e quente, repleta de latidos e gritos das sirenes.
De algum modo, o caos me conforta.
Entediado, eu vejo como o mundo enlouquece e como aos poucos devora-se.
Muitos não comem a carne de seus semelhantes, mas se divertem com o seu sangue.
Não posso nem pensar em dormir sem antes saber quem foi encontrado deitado na sarjeta.
E adivinhe: meu jantar queimou enquanto eu espiava a vida (e a desgraça) alheia!
Falemos, então, de coisas mais agradáveis:
Compre agora a solução para todos os seus problemas.
Compre agora esse altamente tecnológico pente para careca.
Compre agora essa fórmula milagrosa de emagrecimento.
Compre!
E após os comerciais, não perca uma revelação que somente nós temos.
Sim, somos abutres patrocinados.
Eles acreditam em nosso talento de contar tudo o que você quer ouvir, mas não admite.
Todas as notícias ruins que anseia receber já durante o café da manhã.
Sabemos que quer ver sangue e depois agradecer por não ser o teu.
Pede cabeças em bandejas durante o lanche da tarde – e a de seu vizinho, também.
Se teu vizinho não pensa o mesmo que tu pensas, ele é o seu pior inimigo.
Se não pensas o mesmo que o teu vizinho, ele é o seu pior inimigo.
Durante o jantar, alguém reclama dos nervos no bife e esbofeteia quem o assou.
Mas respire: isso é apenas uma cena de novela mostrando algo que acontece todos os dias.
Um beijo de amor entre pessoas do mesmo sexo é algo que também acontece no mundo.
Mas isso parece impactar as famílias muito mais que um filho matando seu próprio pai.
Mas tudo bem, isso é apenas uma ficção, não é mesmo? Faz parte.
Nos dias seguintes, novos crimes de parricídio são relatados.
E o contrário, também.
A vida imita a arte ou a arte imita a vida?
Meus olhos enxergam uma veia saltitante na têmpora de um apresentador exaltado.
Telejornal policial. Nosso vício diário de adrenalina negativa.
Minha mente anestesiada – mas não inteiramente morta – fantasia um infarto ao vivo.
Paro de rir quando penso no sofrimento alheio e lembro de ser novamente humano.
Então troco de canal, e troco de canal, e troco de canal...
E Modelo Anoréxica foi vista na caminhada matinal com Subcelebridade.
E Fulano de Tal foi eliminado do Reality Show.
E eles voltam para se dizerem testemunhas oculares de uma cena de acidente.
Olham para a vítima agonizante; quase imploram por uma entrevista entre as ferragens e os escombros.
Garotas sorriem ou fazem bicos de pato e posam para as câmeras.
Pessoas acenam: Veja só, mamãe, estou aparecendo na televisão!
Ele pode ter descoberto a cura definitiva para o câncer, mas... hei! Veja só quem aí vem!
Cantor de Um Só Sucesso está passeando com seus cachorros.
Não, esqueça esse anônimo e mire a câmera neste outro aqui!
Isso é um pouco mais importante.
Podemos resgatar um pouco a glória de seus melhores dias. Por alguns minutos.
Isso, sim, é notícia.
Oh! Ator agrediu a esposa, Atriz. Isso, sim, é uma notícia muito mais quente!
Ganhamos o pão nosso de cada dia porque a violência nunca sai de férias.
As pessoas apreciam e clamam pela continuidade do espetáculo.
…
…
…
Olá?
Tem alguém vivo aí?
…
Tivemos falhas técnicas, mas estamos de volta.
Tudo bem, eu já li sobre isso.
E já ouvi isso hoje, duas vezes.
Contem-me uma novidade.
A realidade já não me choca. Quero mais!
Ninguém apanha nesta droga de filme?
Ninguém grita por socorro?
As boas novas surpreendem.
Morador de rua devolve uma carteira recheada a um dono desesperado.
Um ato de honestidade choca o público, pois foge do esperado.
O bem não é vendável e não desperta o interesse do mercado.
O mal, por outro lado, não é conhecido por ser discreto.
Nem por ser sutil.
O mal não bate à porta, mas entra pela janela.
O mal justifica nossas sagradas reclamações.
Amamos ver tudo isso e amamos dizer: Esse mundo está mesmo perdido.
Tsc, tsc, tsc...
Cansado, fecho meus olhos e ouço o mundo desabar sem que eu seja tocado.
O caos realmente me conforta.
Como eu poderia cair no sono sem antes ouvir o coro das sirenes?


-------------------------------------------------


Para mais informações e novidades:

Sigam-me em meu perfil no Google Plus

Sigam-me também no Twitter

Curtam e sigam minha Página do Facebook

quarta-feira, 13 de maio de 2015

23. Não Há Vagas


Os rumores dizem que os jovens têm todo o mundo pela frente para ser conquistado por toda a energia e a vontade que possuem em mãos, mas nada dizem sobre toda a sorte de dificuldades que teriam de enfrentar quando chegasse o momento. Para muitas coisas, somos muito jovens; e depois, quando a idade supostamente abriria todas as portas para a vida adulta e suas infinitas possibilidades, nós ainda somos jovens e devemos tomar o último lugar na longa fila das oportunidades, uma fila encabeçada por pessoas supostamente mais experientes.

A juventude nada é além de uma eterna, insuportável espera.

Eu, é claro, sou jovem demais para pensar de maneira tão radical. O que este garoto aqui sabe a respeito das coisas da vida? “Ele é jovem demais até para entender sobre a juventude, e ignora a bênção de ainda não ter de se preocupar com as máculas da maturidade. Ele tem apenas vinte e cinco anos. Ele tem apenas vinte e oito. Tem apenas trinta anos e não sabe que até então tem vivido os seus melhores anos.” Os mais experientes fazem tudo parecer tão mais simples!

Mas a realidade... Esta é um tanto diferente.

Para o jovem, a vida é como uma festa para a qual ele nunca é convidado. Ele mesmo se convida e a invade. E quando não é dos mais tímidos e não se envergonha de sua atitude, ele surge numa entrada triunfal e é quem torna a festa um pouco mais agitada. E barulhenta.

O jovem é um penetra na festa dos veteranos. E como isso incomoda!

E talvez por isso, em algum momento o jovem é finalmente barrado ao tentar seguir com mais um de seus muitos impulsos.

Não quero necessariamente dizer com isso que os mais experientes necessariamente se incomodam com a possibilidade de serem vistos como obsoletos aos olhos do mundo, para serem, então, substituídos por esses jovens desmiolados que não têm metade da bagagem de vida que os mais experientes já tinham quando se encontravam na mesma idade que eles, apesar de ser o grande temor de uns e outros.

Mas eu imagino que desde a segunda geração de seres humanos, os conflitos entre as gerações foram criados, e isto tem se repetido através das eras. Tornou-se uma tradição – e como uma boa tradição, um bom e velho discurso foi sendo (incansavelmente) repetido: neste caso, de que tudo era melhor em sua época se comparado com a época da geração seguinte, o mesmo discurso que provavelmente ouviu da boca de seus pais, que ouviram dos pais deles... E assim voltamos ao início dos tempos.

(Como comentário pessoal, eu também penso que a geração anterior à minha teve uma melhor experiência de vida, mas a minha geração continua a ser melhor que a geração seguinte; a minha geração ainda tinha uns bons resquícios daquela vida um pouco mais lúdica de tempos anteriores.)

Pensando melhor, certas virtudes, defeitos e angústias semelhantes sempre assombraram os mais jovens desde o início. Em algumas coisas, as gerações não são assim tão diferentes.

Todos – ou quase todos – já provaram o sabor amargo daquela sensação de viver em uma outra dimensão, e tudo o que fosse mais interessante parecia acontecer ou existir em um lugar muito distante, no outro lado da cidade ou mesmo no bairro ao lado. Para muitos, cruzar certas fronteiras não era permitido, a menos que os próprios pais fizessem companhia. E até certa idade, alguns não tinham o direito de aprender a conhecer o que havia além de seu próprio quintal – o que é muito natural sob o ponto de vista de quem tem o dever de cuidar e proteger, mas sufoca aqueles que desejam desbravar os diversos campos e territórios da vida.

E esses jovens herdam os medos e anseios de seus pais, e os repetem com seus filhos.

E aquele que tenta fugir disso (automaticamente) se torna a grande ovelha negra da família.

E aquele que tenta fugir de todo o resto – de medos e anseios familiares, de valores e de tabus sociais duvidosos ou batidos... esse, então, é um grande desordeiro.

Mas o jovem que tenta fugir de tudo o que caracteriza o jovem típico não é bem vindo ao clube, nem dos jovens... nem dos adultos. Sim, a juventude é um tipo de limbo, e os jovens são seres que se sentem (eternamente e eternamente e eternamente e...) deslocados no tempo e no espaço.

Mesmo quando tem o desejo de ser diferente, o jovem não faz parte do clube dos originais com essa sua intenção. Todos querem ter um lugar no mundo para chamar de seu. E esse desejo nunca morre...

Nunca.

Nem com os cabelos brancos.


-------------------------------------------------


Para mais informações e novidades:

Sigam-me em meu perfil no Google Plus

Sigam-me também no Twitter

Curtam e sigam minha Página do Facebook

domingo, 8 de fevereiro de 2015

22. Testemunha Ocular



Registro dos últimos acontecimentos, de muito do que temos visto.
Minhas cordiais saudações às futuras gerações, que provavelmente lerão a isto com o pensamento de que leem notícias muito velhas. Fato: nada nesta carta é uma novidade, mas nos dias que se seguem – os meus dias –, todos esses acontecimentos recebem uma consideração maior devido às suas implicações.
É possível que vocês tenham superado a tudo isso, como também é possível que tenham se afundado em um poço muito fundo de consequências devastadoras. Vou mais além: é bem possível que não tenha sobrado um único leitor no futuro.
Ainda não sabemos como tudo isso termina.
Mas deixo esse registro como um aviso a respeito tudo o que terão herdado de nós, das pessoas do passado, de seus ascendentes insensatos. Talvez, eu não sei, isso seja mais uma tentativa desesperada de inspirar mudanças a serem operadas por aqueles que ainda hão de vir em um futuro não tão distante.
Quero que saibam que, com isso, eu tentei fazer a minha parte.
Nem tudo isso eu vi somente pela visão das lentes, mas algumas destas coisas eu também vi com meus próprios olhos. E uma parte de tudo isso eu senti com meus demais sentidos.
Tenho vivido um dos séculos mais impactantes de toda a História.
Fomos agraciados ou golpeados diariamente por incontáveis informações, e testemunhamos o surgimento de algumas das lentas transformações há muito esperadas; mas talvez, ainda não sei, eu não tenha visto a conclusão de tais transformações por causa dos defensores remanescentes das velhas causas perdidas. O ódio, o medo e a corrupção humana obscureceram o coração de muitos e assombraram o espírito de todos, e assim o mundo se viu mendigando paz.
A violência cresceu e se espalhou como uma doença epidêmica, muito depressa, e não por falta de aviso; mas ela tem sido precariamente remediada, e não mais prevenida, mesmo com todos os recursos dos quais alguns de nós orgulham-se de ter em mãos.
Pessoas se empurram e se pisoteiam como que em estouros de boiada, e ainda matam umas às outras com palavras embebidas em veneno; todos os dias, longas batalhas são travadas nos cenários mais ordinários. Diga-me, então, qual teria sido o grande motivo para tamanha loucura? Eu diria que foi aquela velha e eterna ambição desesperada de garantir um pequeno espaço individual, seu ou meu, aqui nesta Terra. Uma pequena fatia de nada.
Mesmo as crianças têm provado do veneno da violência, e sorriem muito satisfeitas quando sentem o envenenamento de suas almas e os efeitos de sua corrupção. Se anteriormente selamos a promessa de protegê-las de qualquer perigo que viesse de fora, (e, consequentemente, daqueles perigos internos que porventura ignoramos e até negligenciamos) hoje, por outro lado, temos trancado nossas portas internas à chave ou com dois ou mais cadeados: uma pequena medida de segurança contra as nossas próprias crianças.
E nos dias que se seguem, palavras doces e agradecimentos, ameaças de morte e insultos dividem a escuridão das mesmas bocas que alimentamos. Tememos o dia de nossa extinção pelas mãos daqueles que um dia ajudamos a atravessar uma avenida movimentada.
Sim, é verdade, mais uma profecia se cumpriu, e o amor...
O amor se esfriou.
O amor reprodutivo, no entanto, esse tem se multiplicado como pedido e não tem falhado tanto, ainda que por acidente; ora, temos muita informação em mãos, é bem verdade, mas o discernimento não é o dom de muitos; e então tem sido muito mais simples condenar o amor autêntico e maior de tantos outros e povoar ainda mais esse mundo por conveniência do que se responsabilizar e prover o que for necessário para a criação desses filhos.
Esses filhos são vigiados de perto e estão bem seguros, e não incomodam mais: eles ficam em silêncio e são educados pelas maravilhas da modernidade, e conhecem a respeito de verdades ou ilusões em suas longas viagens por um mundo virtual muito mais vasto que o natural e, ainda assim, prodigiosamente instalado em aparelhos que cabem na palma da mão. Babás, essas não são mais necessárias.
E os mais experientes não são mais os portadores do conhecimento; hoje, os mais jovens ensinam aos mais velhos. Para o bem ou para o mal.
Tudo mudou.
E o mundo tem girado muito mais depressa e em muito pouco tempo.
Somos aquela geração de idiotas profetizada por Einstein. E vocês, nossos descendentes incautos... vocês serão, possivelmente, a evolução disso.
Eu espero que não.
Pessoalmente, nunca vi muita justiça naquele conceito de hereditariedade em que os erros e acertos são automaticamente transmitidos de uma geração para a outra, mas as coisas parecem ser desta maneira. E logo saberão que, se nada for feito a respeito, a tendência no futuro é de que o mundo será habitado somente pelos descerebrados, sem alma e sem rumo.
E talvez sem volta.
Ninguém mais quer se parecer ou agir como os antigos sonhadores.
Nos dias que se seguem, ninguém mais olha para o céu à procura de figuras nas nuvens, mas nos curvamos para os nossos novos deuses substituíveis – os deuses tecnológicos – e temos nos conectado unicamente com eles e com o nosso ego inflado. Não nos lembramos mais do rosto de nossos pais, de nossos filhos e amigos.
Pressionando um único botão, um único homem tem a ilusão de ter o poder de fazer o mesmo trabalho de dezenas ou centenas de pessoas; mas esse mesmo homem sabe que pode vir a ser dispensável no futuro.
Logo me vem a imagem de um futuro em que os filhos bastardos da Terra irão vagar por ela à procura de algo que ainda necessite unicamente de toques humanos, e não terão êxito na missão; há muito se esqueceram das coisas realmente importantes, ficaram cegos e se desencontraram.
“Vaidade de vaidades! Tudo é vaidade.”*
E uma grande parcela da humanidade se esvaziou de amor e de propósito.
E desumanizou-se.
E a Terra não aguenta mais parir e ter de carregar um número exorbitante de filhos vazios, mas não menos pesados, em cima de seus ombros dolorosamente deslocados; e vive exaurida de tanto amamentar com um seio quase vazio, e muito ferido e infeccionado, enquanto outros tantos filhos ainda continuam famintos e vivem chorando em silêncio. Talvez não morramos de sede, mas bebemos de nossas próprias lágrimas.
Mas nem tudo são trevas ou nuvens escuras: o sol continua a sorrir como sempre, calorosamente; e mais: ele tem brilhado por muito mais tempo, emanando do alto uma radiante radiação, e vive sorrindo com indiferença para tudo o que tem acontecido aqui embaixo.
Temos corrido contra o tempo e corrido de nós mesmos.
E dos outros.
Vivemos a era do individualismo e do vício em nós mesmos, por mais que corramos e fujamos; como se sofrêssemos de uma síndrome de Estocolmo em que somos vítimas e algozes de nós mesmos, e ainda assim nos procuramos em dependência.
Vivemos a era da razão e da total ausência de imaginação.
Vivemos a era do cinismo.
Nos dias que se seguem, muito se fala sobre falso moralismo, de modo que ninguém mais sabe apontar qual teria sido o verdadeiro. E nos dias que se seguem, as pessoas querem fazer valer o seu direito de terem uma opinião, mesmo sobre coisas das quais não entendem ou que em nada afetam suas vidas.
Vivemos uma era de contradições.
Vivemos uma era de fartura e de excessos.
Mas tem sobrado de um lado e faltado do outro.
Tem faltado amor.
Tem faltado bom senso.
Tem faltado reflexão antes da ação.
Tem faltado ação depois da reflexão.
Tem faltado o grito que quebre os espelhos que refletem rostos apáticos.
Tem faltado alma viva.
Tem faltado um surto de consciência.
Tem faltado mais atitude após o grito de guerra.
Tem faltado um bom rock and roll.
E muito mais.
Eu poderia falar de muito, muito mais, mas todas essas coisas não caberiam no papel.
Nos dias que se seguem, em nada mais acreditamos, nem mesmo na esperança de que as coisas podem ser diferentes. Séculos e séculos desapareceram nas areias do tempo, mas as velhas histórias ainda se repetem. Mesmo a minha história é uma repetição de tantas outras, e mesmo a minha geração já havia sido alertada para o que viria logo depois – o mesmo que estou fazendo agora, mas por vocês que ainda nem sonharam em nascer. Meus votos sinceros de sobrevivência às futuras gerações, se ainda não conseguimos destruir tudo até a sua vinda.
E lembrem-se, meus filhos, e filhos dos meus filhos, do seguinte conselho: o livre-arbítrio ainda é um dos nossos grandes remediadores. Por favor, usem-no com sabedoria.
E que possamos quebrar a profecia!



*O Pregador, em Eclesiastes (capítulo 1, versículo 2.)


-------------------------------------------------


Para mais informações e novidades:

Sigam-me em meu perfil no Google Plus

Sigam-me também no Twitter

Curtam e sigam minha Página do Facebook

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

21. Sonhos ou Máquina de Sonhos


(Ou “Devaneios”, simplesmente. Você decide.)

Desde muito cedo, os sonhos sempre estiveram presentes no interior da minha caixa particular, a caixa branca. É muito comum para meninos terem um sonho sempre disponível em mãos e em mente, e os meus sempre me levaram a rascunhar o mundo ideal que eu tanto queria para mim e para as pessoas ao meu redor. Escrevia mensagens um pouco distantes da compreensão de quem as lesse, como códigos secretos montando uma mensagem que somente eu conseguia decodificar e decifrar; e que, pensando bem, não eram feitos inteiramente de doçura ou das coisas mais belas, esses códigos, e poderiam ser interpretados como os meus primeiros sinais de loucura naqueles dias. Tenho uma mente inquieta e muito caótica, como um quarto repleto de objetos espalhados por todos os lados. Tudo o que eu tento fazer é deixar a bagunça um pouco mais organizada, apenas.
Meus outros sonhos, aqueles que surgem durante o sono, esses já são mais baseados na realidade objetiva. Poucas foram as vezes em que sonhei em voar e cair, em cair e voar outra vez, como se os sonhos fossem mais como tentativas de armazenar e tentar compreender o mundo do lado de fora – ou aquilo que interpreto como sendo o mundo natural e suas nuances um tanto incompreensíveis às vezes – e menos sobre ilusões fabricadas pela mente. Na maioria das vezes, eu sei quando estou dentro de um sonho e ainda consigo manipulá-lo com as minhas escolhas, como se esses sonhos fossem apenas uma extensão do cotidiano. Os outros, os sonhos mais imersivos, esses ocorrem justamente quando estou acordado, alimentando-me de meus pensamentos lúdicos e de seus devidos contrapontos, os pensamentos mais obscuros, para que exista algum equilíbrio.
Penso na realidade como sendo feita de fatos e também de interpretações. É feita de percepções e também de perspectivas. Muitas vezes, custa-me muito (ter de) saber diferenciar o fato da interpretação. Isso faz de mim um idealista.
“Mas eu não sou o único.”*
Sonhos, eles são feitos daquilo que nos move.
Somos feitos de desejos e de angústias.
De paixões e ambições.
Estudiosos e artistas tentam explicar os mecanismos da grande Máquina de Sonhos de diferentes maneiras. Podem ser abstratos e/ou concretos. Tudo depende de como os enxergamos. Para alguns, é uma simples questão de fé; para outros, é como um grande jogo de probabilidades, sobretudo quando falamos daqueles sonhos feitos de desejos que desesperadamente clamam por um mínimo de saciedade.
Sim, os sonhos que movem o homem.
Podem ser como aquilo que está ao alcance das mãos, nossas e as de outros com aspirações semelhantes, como também podem ser semelhantes à fumaça que tentamos pegar com essas mesmas mãos, e que os ventos levam embora com um sopro. Puff!
Nossos sonhos nos mostram o que queremos do futuro.
Também nos mostram o que tudo pode vir a ser. Ou não ser.
Premonições.
E se nos revelam um futuro que já está acontecendo?
Sonhamos e acordamos e diariamente sonhamos acordados.
Corremos na direção do que é supostamente possível e fugimos do (que nos dizem ser) impossível. Eu gosto de pensar assim: se não posso voar com as asas que me foram naturalmente negadas, eu preciso buscar aquilo que me aproxime um pouco da verdadeira experiência. Voo entre as asas de um avião e também com as asas da imaginação. O concreto e o abstrato, eles podem coexistir, bastando você olhar para si de uma maneira mais completa.
Dizem que sonhar é um luxo pertencente aos jovens, mas não acredito muito nisso. Também dizem que velhos não sonham, ou que, se sonham, eles sempre esquecem do que viram ou se esforçam para isso.
Dizem que os velhos sonham pelos jovens.
Às vezes, nossos sonhos nos mostram tudo o que tivemos de abandonar.
Eu não sei.
Se estou vivo e respiro, eu ainda posso e quero poder sonhar.
Eu apenas não quero que tentem me despertar num estalar de dedos colocados diante de meus olhos. Seria muita crueldade. Minhas mãos, minhas pernas, meu corpo se movimentam e agem, ainda que eu esteja sonhando de olhos abertos e buscando aos poucos o que tanto almejo. Meu cérebro continua em funcionamento.
Sonhos são terapêuticos, eles nos rejuvenescem e mantêm o desejo vivo.
Afinal, somos todos sonhos ambulantes, e seguimos nossos rumos através de uma infinidade de possibilidades. E se um dia a minha máquina de sonhos se quebrar, farei o que for possível e construirei uma nova.



*“But I'm not the only one.” – John Lennon, em “Imagine”.

-------------------------------------------------


Para mais informações e novidades:

Sigam-me em meu perfil no Google Plus

Sigam-me também no Twitter

Curtam e sigam minha Página do Facebook

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

20. E Se...?


Imagine a seguinte hipótese:
Você se encontra deitado na escuridão de teu quarto à noite, de olhos bem abertos e voltados para o teto, embora não consigam ver muita coisa. Inebriado pela fumaça ou simplesmente mergulhado nas profundezas de um transe, você começa a pensar demais: reflete a respeito dos últimos dias; cria ilusões e fantasias; chateia-se com desilusões acerca de alguns fatos da vida.
Mas não demora a inventar situações.
Hipóteses dentro de hipóteses são formuladas.
E se de repente não aparecem somente as hipóteses mais simples, mas também um pensamento inusitado de que na realidade você não está deitado no escuro, mas cego?
Um pensamento incomum invade a tua mente, o tipo de pensamento que talvez não teria nem em seus dias mais difíceis, mas que agora você não consegue evitar. E isso o incomoda profundamente. Afinal, a tua paz se perdeu na obscuridade de um pensamento superestimado.
Trêmulo e tomado por um medo muito irracional, você fecha os olhos, como que negando tudo o que já não pode ver. E tudo o mais parece ficar ainda mais escuro.
Então você se levanta depressa para acender a luz, ainda de olhos fechados. E ainda assim, não encontra coragem para desvendar o mistério, pois teme abrir os olhos ante a possibilidade de a escuridão ser a nova lei que rege o seu mundo particular.
Tomado pelo medo, você volta para a cama e espera em silêncio até cair no sono.
Mas isto é apenas um exemplo um pouco mais extremo. De um tipo de indivíduo repentinamente atormentado por uma incerteza incômoda, talvez culminando em outras ainda mais perturbadoras através dos tempos, talvez sendo esquecida após uma revigorante noite de sono e com o surgimento de um novo amanhecer.
O final da história fica a critério de sua imaginação.
Entenda, o cenário realmente não importa muito.
Você pode estar em qualquer lugar, em qualquer hora, fazendo coisas importantes ou aleatórias, e em algum momento será acariciado ou assaltado por um questionamento algo fora do comum. Acredite, é inevitável.
Eu mesmo conhecia alguém que costumava ser excessivamente realista e se dizia muito incomodado com a elaboração de determinadas hipóteses. Começar uma linha de diálogo com um “E se...?” costumava causar inquietação e ferir a sensibilidade de alguém muito apegado aos fatos, sendo este um fato causador de uma série de conflitos entre nós. Creio que ele apenas tinha medo de viver com medo.
Posso ter o meu excesso de incertezas, estou sabendo. Também sei como às vezes isso me atrai algumas preocupações desnecessárias. Mas não posso simplesmente ser privado daquelas hipóteses que me levam a fazer o que faço.
Os “ses” são chaves que abrem as portas da imaginação para aqueles que criam ou descobrem coisas.
Não fosse a imaginação de alguns, certas possibilidades nunca seriam pensadas. E se tais possibilidades nunca fossem testadas, certos recursos modernos talvez nunca existissem, pois seriam para sempre catalogados como artigos de ficção científica – e talvez fossem mesmo; isto é, pelo menos na ocasião em que foram concebidos por aqueles visionários vistos como meros sonhadores.
Se cientistas não tivessem perguntado a si mesmos o que poderia acontecer se testassem ou combinassem um ou mais elementos até então desconhecidos, talvez nunca teriam descoberto a cura de muitas doenças.
Por outro lado, o conhecimento também tornou possível a criação da bomba atômica.
Hipóteses. Situações. Dúvidas. Conflitos. Pensamentos.
Tudo isso pode começar com um dos incontáveis “ses” que nos deixam inquietos ao longo de nossas vidas.
Mas às vezes, um “se” é tão somente uma hipótese solta no ar, sem maiores significados.
Pode vir numa pergunta singela que você ouviria de um adulto e de uma criança – e que poderiam muito bem ser a mesma pessoa, mas em tempos diferentes.
De qualquer modo, não demoramos a pensar novamente em hipóteses um pouco mais incômodas, como aquela sugerida logo no início.
Tua mente é o teu purgatório particular, o lugar perfeito para se confessar e reavaliar a si mesmo. Muitos de meus fantasmas e demônios internos são expulsos quando eu persisto em me expressar a partir de uma ou mais questões existenciais que se espalham na grande miscelânea de pensamentos que é a minha mente inquieta. Gosto de dialogar comigo mesmo.
Eu me pergunto, por exemplo, se a maldade continuaria existindo caso a gente nunca mais morresse. Quero dizer, ela teria motivos para existir? Penso que a maldade vive porque sabemos que um dia vamos morrer. Nós queremos ter uma passagem mais confortável por este mundo, e isso muitas vezes nos leva a querer pisar em outros que apenas querem o mesmo.
É claro, talvez seja simplesmente pela ausência de amor entre os semelhantes.
E eu aqui, viajando nas ideias!
Mas e se o nosso fardo for a eterna repetição de nossa viciosa imperfeição?
E se tudo o que vemos e vivemos for somente uma comédia de erros, mas sem risadas ao fundo?
Se você quiser, eu posso ir mais longe.
E se a nossa existência for somente um filme muito longo? Ou então uma série de fotografias em um grande álbum cósmico – e há muito a nossa vida já havia sido vivida e experimentada, sendo hoje apenas uma série de memórias revisitadas muitas e muitas vezes, sem a gente perceber?
Pense nisso.
Então pense o seguinte: e se a nossa vida for nada além de um romance ou de uma peça teatral muito bem encenada? E se nossos pais, amigos e familiares forem somente atores muito talentosos cumprindo papéis e influenciando os rumos da existência de nossa personagem?
Pense bem, isso talvez justificasse a imposição de tradições no mundo. Todos teriam recebido um roteiro bem detalhado, assim como a orientação do dramaturgo de que tudo ali deveria ser seguido à risca, a despeito de eventuais improvisos tolerados por ele. Sua vaidade de autor deveria ser alimentada.
Mas é só uma hipótese.
E se eu não for o protagonista de minha própria história, mas apenas um dos muitos fragmentos de um grande mosaico?
E se eu for um mero objeto solto no cenário?
E se eu não for amado, nem odiado, mas observado com indiferença pelo universo?
E se nossas histórias forem parecidas, a cópia da cópia?
E se estivermos sozinhos?
E se não estivermos?
E se não existir vida após a morte? E se existir?
O que aconteceria se todas as certezas se dissolvessem de uma só vez? E se todas incertezas fossem derrubadas como muralhas, restando somente os escombros e a poeira?
Todas as coisas, elas existem e não existem ao mesmo tempo.
Todas as coisas se tornam existentes a partir do momento em que você as percebe.
Elas já não existiam antes de percebê-las, e mais uma vez deixam de existir no exato instante em que as primeiras dúvidas aparecem. Por toda a tua vida, ideias conflitantes se debatem e se contorcem entre os compartimentos secretos de tua mente, e isso se repete sem maiores interrupções ou intervalos até o dia em que a tua vida finalmente se esvai, a tua consciência se apaga e deste mundo desaparece. Neste ponto, tudo o mais se torna inexistente, inclusive você.
E se todas essas ideias sumirem?
E se nunca mais as dúvidas e perguntas existirem?
E se ninguém mais questionar?
E se ninguém mais tiver o que buscar? Qual seria, então, o sentido da vida?
E se realmente ficarmos cegos – não literalmente dos olhos, mas da mente?
E se o mundo for feito de escuridão novamente?
…
Concluo que talvez não seja simples ou mesmo possível tirar conclusões sobre certos questionamentos que inesperadamente nos assombram. Então você se deita na escuridão de teu quarto à noite, e aquela mesma pergunta que ficou martelando em tua cabeça o dia todo, ela continua a incomodá-lo até quando o sono finalmente chegar. Se o sono chegar. O tempo pode passar e nos empurrar com grande violência, mas algumas perguntas aparentemente ficarão sem resposta.
Tudo fica a critério de nossa imaginação fértil.

-------------------------------------------------

Para mais informações e novidades:

Sigam-me em meu perfil no Google Plus

Sigam-me também no Twitter

Curtam e sigam minha Página do Facebook